Shoko Suzuki e Mieko Ukeseki: Duas mulheres ceramistas japonesas entre o Brasil e o Japão

Queridos seguidores deste blog,

Apesar da ausência de posts há quase dois anos, continuo recebendo mensagens e comentários de novos e velhos seguidores. Assim, para preencher esse vazio de publicações, decidi deixar AQUI o link para a minha dissertação de mestrado sobre a história de vida de Shoko Suzuki e Mieko Ukeseki, intitulada “Duas mulheres ceramistas entre o Japão e o Brasil: identidade, cultura e representação”. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito to programa de Letras-Japonês (Casa de Cultura Japonesa) da Universidade de São Paulo sob a orientação do Professor Koichi Mori. A defesa deu-se em Outubro de 2014, com a presença da socióloga e professora da UFMG Yumi Garcia das Santos e da antropóloga e professora da USP Rose Satiko Hikiji.

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Resumo em português

Ao apresentar o relato da trajetória de vida de duas mulheres ceramistas japonesas, Shoko Suzuki e Mieko Ukeseki, inserindo-o em seu contexto histórico e sociocultural, este trabalho tem como objetivo apresentar as construções históricas, representações culturais, experiências pessoais e subjetividades envolvidas na construção da sua identidade. A partir da análise do discurso e da prática destas ceramistas, recolhidos a partir dos preceitos definidos por Daniel Bertaux (1997) como récits de vie (relatos de vida), pretende-se compreender os processos pessoais envolvidos na construção da identidade cultural das duas ceramistas, marcados pela vivência transcultural decorrente da imigração para o estado de São Paulo, Brasil, nas décadas de 1960 e 1970 respectivamente. A história da cerâmica japonesa toma aqui papel relevante para a construção das imagens de japonesidade, traduzidas no discurso e na prática das ceramistas. Contudo, é na apropriação e reinterpretação destas representações em diálogo com suas subjetividades e experiências pessoais que a identidade cultural é recriada. Ao lançar luz sobre o relato pessoal da trajetória de vida de duas ceramistas japonesas no Brasil, esta pesquisa pretende também contribuir para iluminar vários aspetos da história, sociedade e cultura do Japão e do Brasil do último século, em especial, a situação das mulheres na cerâmica nipônica, a imigração de artesãos e artistas japoneses para o Brasil, os processos de construção da identidade cultural japonesa através do artesanato e da cerâmica e os processos pessoais envolvidos na criação de uma identidade nipo-brasileira

 Resumo em inglês
By presenting the life-story account of two Japanese women potters, Shoko Suzuki and Mieko Ukeseki, inserting it in its historical and sociocultural context, this work aims to present the historical constructions, cultural representations, personal experiences and subjectivities involved in the construction of their identity. From their discourse and practice analysis, collected from the precepts defined by Daniel Bertaux (1997) as récits de vie (“life story accounts”), we intend to understand the personal processes involved in the construction of their cultural identity, marked by the transcultural experience due to the immigration to Brazil in the 1960s and 1970s respectively. The history of Japanese ceramics takes here an important part for the construction of images of “Japaneseness”, which are translated in the discourse and practice of these potters. However, it is in the appropriation and reinterpretation of these representations in dialogue with their personal experiences and subjectivities that cultural identity is recreated. By shedding light on the personal account of the life stories of two Japanese women potters in Brazil, this research also aims to contribute to illuminate various aspects of the history, society and culture of Japan and Brazil in the last century, in particular, the situation of women in Japanese ceramics, the immigration of Japanese artists and craftsmen to Brazil, the processes involved in the construction of a Japanese cultural identity through craft and pottery and the creation of a Japanese-Brazilian identity.
Para quem quiser ler uma versão resumida (em inglês), segue AQUI o link do artigo publicado no volume 7 do Journal of International and Advanced Japanese Studies da Universidade de Tsukuba, Japão, em Março 2015.
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Aproveito ainda para deixar AQUI o link para o Tumblr que criei com o resultado do meu projeto para a aula de Fotografia Experimental ministrada pelo Professor Verl Adams na Universidade Metropolitana de Tokyo, intitulado “Images of Japan”.
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Shoko Suzuki: mestre ceramista e artista

Shoko Suzuki poderia se passar por mais uma ba-chan (vovó japonesa) aos olhos de qualquer leigo que a cruzasse por aí. De modos simples, vestimentas modestas, cabelos brancos, bengala e sotaque japonês, Shoko é nada mais nada menos que a veterana da cerâmica japonesa no Brasil. Para além de Mestre Artesã, Shoko é hoje uma das artistas em cerâmica de maior renome, com exposição individual no Museu de Arte de São Paulo (MASP, 1975) e participação em exposições coletivas por todo o país, além de no Japão e na Alemanha.

http://www.acasa.org.br

Nascida em Tokyo no ano 1929, Shoko vivenciou a guerra e o preconceito de ser uma mulher fazendo cerâmica no Japão. Num país onde os mestres em cerâmica são homens, delegando à mulher um papel secundário de mera ajudante, Shoko conseguiu fazer seu trabalho artistico apesar dos preceitos rígidos da tradição.

No início da década de 60, ao ver um documentário sobre Brasília na televisão japonesa, soube que era no Brasil o seu lugar e aqui se estabeleceu em 1962, junto com seu marido, o também renomado pintor Yukio Suzuki.

Em 1966 estabeleceu seu ateliê em Cotia, num terreno com inclinação perfeita para a construção de um forno Noborigama*, de acordo com o projeto que um amigo lhe dera antes de embarcar para o Brasil. Munida de um torno manual, argila que recolhia do próprio terreno e esmaltes que fabricava a partir das folhas das árvores, Shoko iniciou uma carreira em cerâmica que, mal sabia ela, teria fortes repercussões no desenvolvimento dessa arte no Brasil.

Shoko Suzuki e Noborigama em seu ateliê na Granja Viana

Suas peças apresentam formas femininas e naturais, apesar da aparência rústica e rugosidade ao toque, característica essencial na cerâmica utilizada na cerimônia do chá. Mas Shoko vai muito além dos utilitários. Suas esculturas em cerâmica, de formas esféricas, cilíndricas e ovóides, são plenas obras de arte contemporânea. Nelas transparece a alma e a essência da artista.

Escultura Aldeia http://www.acasa.org.br
Vaso Cosmos http://www.acasa.org.br

Noborigama é um tipo de forno a lenha tradicional japonês, de origem chinesa, utilizado no Japão desde o século XVII. Construído num declive aproveitando a inclinação do terreno, contém várias câmeras interligas entre si, cada uma num determinado nível. A duração de uma queima em noborigama pode ser de até 35 horas. Por esse motivo é geralmente considerado um trabalho masculino.

Mais sobre Shoko Suzuki:

Site da Granja: A Cerâmica de Shoko Suzuki

Site da Granja: História

Eu em conversa com Shoko Suzuki (02.10.2011)


Portugal, Brasil e Japão em Cunha

Cunha. Em quatro palavras: Fusca (nela se concentra a maior frota deste tipo de veículos do país), Pinhão (é a maior produtora do Estado de São Paulo), Cerveja (é lá que se fabrica a magnífica Wolkenburg) e Cerâmica (à qual dedicarei este post).

Onde?

Cunha localiza-se no Estado de São Paulo, a meio caminho entre a capital e o Rio de Janeiro, na estrada que leva também a Paraty. A 1.100 metros de altitude, Cunha possui um clima semelhante ao de Campos de Jordão, com temperaturas médias de 22º no verão e 18º no inverno.

História da Cerâmica em Cunha

Cunha é uma das mais importantes cidades produtoras de cerâmica do Brasil. Com uma tradição de cerâmica de baixa temperatura, fabricada tanto pelos índios guaranis que ocuparam a região, quanto pelas chamadas paneleiras (produtoras de cerâmica utilitária de herança ibérica) até recentemente, Cunha ganhou notabilidade pelo desenvolvimento de cerâmica a alta temperatura, técnica inexistente no Brasil até meados do século XX.

A cerâmica de alta temperatura tem origem oriental e foi adotada pelos europeus a partir do século XVI. No Brasil ela começa a ser produzida  a partir de meados do século XX, trazida por imigrantes japoneses com sua técnica de construção de fornos que atingem temperaturas acima de 1.100º.

Foi em 1975 que Cunha teve seu primeiro forno a alta temperatura. O Noborigama construindo sob as direções do ceramista japonês Toshiyuki Ukeseki foi também um dos primeiros do tipo no Brasil.

Mas voltando um pouco no passado, importa contar como tudo aconteceu.

Lisboa, 1970. O recém-formado arquiteto Alberto Cidraes consegue uma bolsa de pós-graduação do governo japonês. Um ótimo pretexto para sair do país, fugindo da ditadura e da possibilidade de ser incorporado no exército para lutar nas colônias portuguesas em África. Parte então para o Japão. Lá começa a se interessar por cerâmica e passa a frequentar ateliês de ceramistas, iniciando suas primeiras experiências com o barro.

Tsuru, 1972. Terminado o curso de pós-graduação, mas ainda com dois meses de bolsa de estudos, Alberto Cidraes decide aproveitar seus últimos momentos no Japão numa aldeia de ceramistas. Em Tsuru, província de Fukuoka, aluga uma casa e instala um ateliê, vizinho aos ceramistas Mieko e Toshiyuki Ukeseki, com quem constrói uma profunda amizade. Passados os dois meses de bolsa, Alberto receia regressar a Portugal, onde seria preso por não se haver alistado no exército. Compartilha então com Mieko e Toshiyuki seues planos de se instalar no Brasil e convida-os a se juntar a ele e criar um grupo de ceramistas.

Brasil, 1973. Alberto e sua esposa chegaram a São Paulo em Julho de 1973. Moraram em vários lugares e tiveram vários trabalhos antes de formarem o grupo Takê, grupo percursor da cerâmica de Cunha, numa pequena aldeia de pescadores do lado oposto a Salvador.

São Paulo, 1975. O grupo Takê desfaz-se e Alberto volta para São Paulo. Pouco depois Mieko e Toshiyuki conseguem finalmente sair do Japão e em conjunto começam a procurar um local para montar um ateliê conjunto.

Cunha, Outono de 1975. Alberto Cidraes, Mieko e Toshiyuki Ukeseki e os irmãos Toninho e Vicco Cordeiro estabelecem-se em Cunha, num antigo matadouro cedido pela prefeitura.

Cunha, Dezembro de 1975. O grupo faz sua primeira queima em Noborigama, construído sob as direções de Toshiyuki.

Atualidade

A cerâmica de alta temperatura queimada em forno Noborigama tornou-se um dos principais cartões de visita de Cunha. Depois da construção do forno comum no Matadouro, que funcionou até 1978, nos anos 80 os ceramistas começam a abrir seus ateliês individuais e a realizar aberturas de fornadas para o público. No final dos anos 80, outros ceramistas paulistanos chegam na cidade e montam seus ateliês.

Atualmente existem 5 ateliês com forno Noborigama em Cunha. Os únicos ceramistas aí estabelecidos que faziam parte do grupo original são o português Alberto Cidraes e a japonesa Mieko Ukeseki.

Em 2005 comemoraram-se os 30 anos da construção do primeiro forno Noborigama de Cunha, com o lançamento do livro 30 anos de Cerâmica em Cunha e a realização do I Festival de Cerâmica da cidade.

Em janeiro de 2009 foi criado o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC)que visa organizar institucionalmente o polo de cerâmica artística do município.

Atualmente, Cunha é um dos mais importantes centros de cerâmica artística da América Latina, com 16 ateliês agrupados na Cunhacerâmica, associação dos ceramistas de Cunha.

Mais informações:

Portal de Cunha 
Ateliê de Alberto Cidraes
Ateliê Mieko e Mário 
Ateliê Suenaga e Jardineiro 
Ateliê Gallery Tokai
Noborigama.com

Cerâmica e Kimonos

A estadia lusitana que relatei nos últimos posts, e sobre a qual ainda devo aos leitores alguns relatos, levou-me também a Paris, onde tomei conhecimento do trabalho peculiar da designer norte-americana Karen LaMonte.

LaMonte aborda em seus trabalhos o tema da vestimenta como uma metáfora para a identidade, apontando a disparidade entre a pele natural e a pele social, esta última vista como algo usado para obscurecer e esconder, para proteger o indivíduo e projetar uma pessoa. Ela retrata a roupa com um divisor entre o espaço público e o privado, entre transparência e transitoriedade.

É a partir desse conceito que LaMonte desenvolve o seu trabalho peculiar: esculturas em vidro, bronze e cerâmica de vestimentas sem corpo em tamanho real. Estas vestimentas incluem também uma série de kimonos perfeitamente esculpidos em cerâmica.

Através das vestimentas, Karen LaMonte questiona sutilmente os temas de identidade humana e feminina. Marcas de um corpo ausente, os tecidos voluptuosos em cerâmica exprimem, no entanto, um movimento, uma via, uma mistura sublime entre ausência e presença.
Através das roupas que aprisionam os corpos, a artistas capta os reflexos fugazes de mulheres, crianças ou idosos no interior de espelhos. Como sombras espectrais, as suas faces se congelam num ambiente fantasmagórico no limite do irreal e desaparecem rapidamente quando a luz muda. Expostas numa semi-obscuridade, as obras de Karen LaMonte conduzem o visitante a um mundo fascinante e fantástico. (http://www.nordmag.com/culture/musees/sars_poteries/musee_sars_poteries.htm)

As esculturas de Karen LaMonte podem ser vistas  no Museu de Cerâmica de Sars-Poteries até 13 de Março.

“Refléctions Feminines”
Nov 18, 2010- March 13, 2011
Musée-atelier départemental du Verre
1, rue du Général de Gaulle
Sars-Poteries
museeduverre@cg59.fr

Mais informações sobre a artista: http://www.karenlamonte.com