Lançamento do livro “Cerâmica em Cunha: 40 anos de forno noborigama no Brasil”

O livro “Cerâmica em Cunha: 40 anos de forno noborigama no Brasil”, lançado no dia 30 de setembro na nova Casa do Artesão, na cidade de Cunha, interior do estado de São Paulo, já está disponível para venda!

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O resultado é fruto de uma colaboração minha com o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC) juntamente com Johnny Mazzilli, que fez as fotos, Laurentino Dias, a cargo da diagramação, e Silvana Baierl na produção.

A ideia do projeto surgiu da nova presidência do Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha, encabeçado por Marcelo Tokai. O ICCC foi criado em 2009 com o objetivo de promover a atividade cerâmica na cidade e suas atividades incluem o ensino da cerâmica aos alunos da rede pública, além da realização de palestras, oficinas, workshops e o Festival da Cerâmica, que acontece anualmente em outubro.

O projeto inicial era fazer uma edição atualizada da publicação de 2005, lançado em comemoração aos 30 anos de forno noborigama em Cunha pelos ceramistas pioneiros Mieko Ukeseki e Alberto Cidraes, que trouxeram essa técnica do Japão aqui para a cidade em 1975.

Entretanto, após um ano de pesquisa, durante o qual entrevistei mais de 40 ceramistas em atividade na região, acrescentados ao trabalho que em venho desenvolvendo desde 2010 sobre a influência da cerâmica japonesa no Brasil, o que era para ser uma reedição de uma publicação esgotada acabou se tornando em uma nova publicação.

Composto de 150 páginas, com capa em alta gramatura e miolo em papel couche, além de dezenas de fotos inéditas, o livro é constituído por três capítulos principais. O primeiro sobre a história da cerâmica em Cunha, com foco nos 40 anos de forno noborigama na cidade. Um segundo, mais didático, sobre os processos envolvidos na produção de cerâmica em geral e em Cunha em particular, desde a coleta da argila até à descrição dos vários tipos de fornos usados aqui na cidade. E o terceiro capítulo, um catálogo dos ceramistas da cidade.

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“Cerâmica em Cunha: 40 anos de forno noborigama no Brasil” é o produto de muito esforço pessoal, com o apoio institucional e edição do ICCC, e não contou com nenhum financiamento de caráter governamental. O valor arrecadado a partir da venda coletiva foi usado para cobrir os custos básicos de produção.

Este é um projeto realizado através dedicação de muitas pessoas, que doaram altruisticamente seu trabalho das mais variadas formas para a sua concretização.

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A primeira tiragem incluiu a impressão de 500 exemplares. O valor arrecadado com a venda será mobilizado para novas tiragens. Agradeço por isso sua colaboração.

O livro está disponível para venda nos seguintes locais:

São Paulo – Arte Brasil
Rua Joel Jorge de Melo, 752
Vila Mariana – São Paulo
04128-081 – SP
Referência: Próximo à estação Santa Cruz.
Paralela com a Domingos de Moraes e transversal com a Luis Góes, sentido Ricardo Jafet.

Cunha – Casa do Artesão
R. José Arantes Filho, 27, Cunha – SP.
Cunha – Ateliê Suenaga & Jardineiro
Rua Doutor Paulo Jarbas da Silva, 150 – Mantiqueira, Cunha – SP, 12530-000
Futuramente, estará também disponível para compra no site da Arte Brasil:
O lançamento incluiu a realização de uma exposição com os artistas presentes no livro, que está aberta à visitação na Casa do Artesão, Cunha, até dia 15 de novembro.

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Pérolas e sereias japonesas

Ontem fui ver a exposição “Pérolas” no Museu de Arte Brasileira (São Paulo, Brasil) e recordei nostalgicamente a minha passagem pela Baía de Ago, no litoral da prefeitura de Mie (Japão), famosa por suas fazendas de pérolas. Isso foi em agosto de 2013, no pico do verão japonês e foi possível graças a uma bolsa para estudo da língua japonesa da Fundação Japão, que me permitiu fazer uma curta visita de campo à terra natal da ceramista japonesa residente no Brasil, Mieko Ukeseki (Cunha, SP – ver post). Sobre as paisagens naturais da sua terra natal, ela disse:

Eu nasci no interior da província de Mie, muito perto do mar, onde nasce o sol no oceano. Bem no interior. Tem muitas ilhas. Tipo Paratí, só que mar aberto.

Baía de Ago, agosto de 2013.
Baía de Ago, agosto de 2013.
Baía de Ago, wikipedia.
Baía de Ago, wikipedia.

A prefeitura de Mie é uma área majoritariamente rural e uma das mais pobres do arquipélago japonês, de onde saíram vários emigrantes em direção ao Brasil. No entanto, sua região centro-sul, especialmente a litorânea, tornou-se em um importante destino turístico doméstico após a Segunda Guerra, famosa pelos seus frutos do mar, pelas fazendas de pérolas e por um complexo de santuários xintoístas do século 3 chamado Ise Jingu. É na atual cidade de Shima, parte do parque nacional de Ise-Shima, que se localiza a também famosa baía de Ago, onde Mieko Ukeseki nasceu e viveu até aos seus 18 anos. A baía é conhecida pelo cultivo de pérolas, inventado aqui em 1893 por Kokichi Mikimoto.

Kokichi Mikimoto( 1858 - 1954)
Kokichi Mikimoto( 1858 – 1954)

O local é também famoso pelos grupos de mulheres que se dedicam à caça de pérolas naturais desde há cerca de 2 mil anos atrás. Elas são conhecidos como “ama”, mas hoje restam apenas algumas poucas senhoras japonesas (já nos seus 90 anos) que ganham a vida preenchendo os pulmões de ar e mergulhando por longos períodos de tempo nas profundezas do oceano Pacífico, com nada mais do que uma máscara e nadadeiras.

Mergulhadora japonesa "ama". http://www.messynessychic.com/
Mergulhadoras japonesas “ama”.
http://www.messynessychic.com/
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“Ama”
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“Ama” (海 女 em japonês), significa literalmente “mulher do mar” e sua existência está registrada já em 750, na mais antiga antologia de poesia japonesa, o “Man’yōshū”. Essas mulheres especializaram-se no mergulho livre a cerca de 30 metros de profundidade, em água fria e usando nada mais do que uma tanga. Utilizando técnicas especiais para prender a respiração por até 2 minutos de cada vez, elas trabalhavam até 4 horas por dia na coleta de vários frutos do mar e, especialmente, a caça de pérolas.

Representação de uma "ama" na obra do mestre xilogravador Utagawa Kuniyoshi (1797 – 1861).
Representação de uma “ama” na obra do mestre xilogravador Utagawa Kuniyoshi (1797 – 1861).

O fato desta atividade ser feita exclusivamente por mulheres devia-se à crença da existência de uma camada isolante extra de gordura no corpo feminino que lhes permitiria manter a respiração por mais tempo do que os homens. Com esta vantagem, elas também podiam ganhar mais dinheiro em uma única temporada de mergulho do que a maioria dos homens de sua aldeia em um ano.

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“Ama”
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Depois da Segunda Guerra Mundial e com o crescimento do turismo doméstico no Japão, a nudez das “ama” começou a ser comentada pelos e elas foram forçadas a cobrir-se. Contudo, o fotógrafo japonês Yoshiyuki Iwase (1904-2001) capturou os últimos momentos preciosos de uma tradição que logo começou a desaparecer, “a beleza simples, até mesmo primitiva das Ama.”

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Ama já vestidas. http://gakuran.com/
Ama já vestidas.
http://gakuran.com/

Com a falta de mulheres jovens para suceder as mais velhas, aliada à modernização da pesca no Japão, esta prática antiga é cada vez menor.Em 1956, havia 17.611 Ama no Japão, mas a partir de 2010 só 2.174 permaneceram. Destes, quase a metade trabalha região de Shima, na prefeitura de Mie.

Quando visitei a Baía de Ago em agosto de 2013, tive o privilégio de conhecer rapidamente uma dessas senhoras e receber um colar com uma das pérolas colhida por ela. Isto porque eu tive a sorte de escolher almoçar em um pequeno restaurante local que servia frutos do mar grelhados e que pertencia ao seu filho. Surpreendido e orgulhoso da presença de uma estrangeira em área tão remota, ele pegou o colar com sua mãe idosa, que eu apenas vi de relance, e ofereceu-me como gratidão pela minha presença em seu restaurante. Além disso, quando eu estava entrando no barco em direção a uma das muitas ilhas da baía, ele correu em minha direção para me oferecer ainda um sorvete.

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Na exposição do Museu de Arte Brasileira, é explicado o processo da formação natural de pérolas  no interior de moluscos bivalves e caracóis do mar, assim como a sua antiga tradição de coleta e uso ornamental. Segundo a wikipedia:

Uma pérola é formada quando o tecido do manto da concha é ferido por um parasita, por um ataque de um peixe ou por outro evento que prejudica o aro externo frágil da concha de um bivalve ou de um molusco gastrópode. Em resposta, o tecido do manto do molusco segrega nácar no saco de pérolas, um cisto que se forma durante o processo de cura.

Pérola sendo extraída de uma ostra akoya. Wikipedia.
Pérola sendo extraída de uma ostra akoya. Wikipedia.

No final do século 19, o japonês Kokichi Mikimoto descobriu uma técnica que possibilitava o cultivo artificial de pérolas dentro dos próprios moluscos, provocando a sua produção nos mesmos moldes da natural ao introduzir uma matriz que formará a bolsa perolífera. Esta técnica proliferou-se ao redor do mundo e hoje a empresa de luxo Mikimoto possui lojas em Paris, Nova Iorque, Xangai, Tóquio, entre outras. 

Tudo isto pode ser visto na exposição no Museu de Arte Brasileira, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, até ao dia 28 de setembro.

Mais informações:

Exposição Pérolas FAAP

The Last Japanese Mermaids

Ama the pearl diving mermaids of Japan

Extra:

Cena do filme “Tampopo” (dir. Juzo Itami, Japão, 1985):

A Balada de Marunouchi

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Odeio Marunouchi, centro empresarial e financeiro de Tokyo, seus prédios altos e espelhados, suas lojas de grife e seus cafés com nomes em francês. Saí na estação de metrô Hibiya, perto de onde fica o Museu de Artes Idemitsu, que exibia uma mostra sobre o ceramista japonês Itaya Hazan, falecido em 1963. Admito que não estava muito disposta à visita, pois apesar de conhecer pouco sobre o trabalho de Hazan, sabia que ele trabalhava especialmente com porcelana, material que eu não aprecio tanto por ser mais fina e elegante que a cerâmica comum. Combinava, portanto, com o ambiente pseudo-chique de Marunouchi.

Depois de me perder durante 10 minutos no espaço de três quarteirões frequentados majoritariamente por sarariman (salary men) engravatados e me sentido completamente deslocada, lá dei de caras com o museu. Na porta, percebi rapidamente um senhorzinho japonês que, tal como eu, destoava da multidão por seu estilo “descolado”: cabelo branco pelos ombros coberto por um chapéu de abas, sobretudo comprido e longa barba branca.

No momento não prestei muita atenção e lá entrei no elevador do prédio chiquérrimo, onde um porteiro de uniforme organizava a fila e as entradas e saídas do elevador. Logo que apertei o botão do sexto andar, onde fica o museu, percebi que o tal senhorzinho “descolado” entrara junto comigo.

– Doko kara kimashita? – “de onde você é?” perguntou em japonês.

– Eu sou portuguesa, mas moro no Brasil – respondi como normalmente.

– Ahhhhh! – soltou espantado – Eu fui a Portugal o ano passado!

– É mesmo? – respondi também surpresa. – E gostou?

Sexto andar. As portas dos elevadores abriram-se e começamos ambos caminhando em direção à bilheteria.

– Eu fui a Compustela, na Espanha, e depois Porto, Coimbra, Nazaré – comentou.

– Foi sua primeira vez em Portugal? – perguntei.

– Segunda.

Chegando na bilhetaria, apresentei meu cartão de estudante e estava tirando o dinheiro da carteira para pagar a entrada quando ele me disse:

– Não, não. Você não precisa pagar.

– Porquê? – soltei espantada.

Então ele mostrou um cartão à funcionária da bilheteria, que sorriu e nos entregou o ingresso sem cobrar nada. Tentando entender o que se passava, o senhorzinho “descolado” me pegou de surpresa mais uma vez:

– Eu adoro Portugal – disse, em português com sotaque.

-Uaahhh! – gritei eu espantada – O senhor fala português!

– Eu morei em Brasília há dez anos atrás – explicou.

Depois me mostrou o tal cartão que usou para entrar de graça no museu, explicando alguma coisa em japonês que eu não entendi.

– Jya, bye bye! – disse de repente.

– Muito obrigada! – respondi gaguejando, num misto de surpresa e constrangimento.

– Qual é seu nome? – perguntou-me ainda.

– Liliana – disse – E o seu?

– Moritani.

– Muito prazer Sr. Moritani!

E lá seguiu ele à frente para a exposição.

***

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Depois de ter visto dezenas de exposições de cerâmica tradicional japonesa, mostrando números infinitos de tigelas para a cerimônia do chá, rústicas, tortas, assimétricas, influenciadas pela estética wabi-sabi, ou como lhe queiramos chamar, as obras de Itaya Hazan caíram como uma lufada de ar fresco.

Influenciado pelo movimento europeu art nouveau que, por sua vez, se inspirou também na estética japonesa e suas artes tradicionais, Hazan criou peças ao mesmo tempo simples e exuberantes, de uma delicadeza excepcional. Suas obras em porcelana são bem diferentes daquele tipo a que eu estava acostumada de superfícies brilhantes e motivos excessivamente detalhados. Além das porcelanas brancas com vidrado mate, pintadas à mão em cores pastel com traços que lembram as técnicas de caligrafia, Hazan executou também várias experiências com cristais minerais, resultando em obras com cores e tons fora do comum, que eu jamais havia visto em peças de cerâmica.

Hazan também criou algumas tigelas para a cerimônia do chá, bem diferentes das de estilo raku ou outros estilos tradicionais usados na ocasião, caracterizadas por sua simplicidade e sobriedade. Uma das peças que mais me marcou tem o nome de Amanogawa (Via Láctea), mas infelizmente não encontrei nenhuma foto para colocar aqui.

***

Enquanto eu via atentamente a exposição, tirando apontamentos vários, o Sr. Moritani veio se despedir. Ainda me perguntou o que fazia e comentou que existia um restaurante português que ele gostava muito perto do Parque Yoyogi. Enquato conversávamos entusiasticamente no meio da exposição, uma funcionária aproximou-se pedindo-nos para baixar o tom de voz. No fim, pedi-lhe o cartão de visita, com a intenção de lhe enviar um e-mail agradecendo a entrada no museu e nos despedimos.

Depois de terminar a visita à exposição dirigi-me à cafetaria, que tem uma vista belíssima dos prédios empresarias, altos e espelhados da região e dos jardins do Palácio Imperial.

Acho que, afinal, até gosto de Marunouchi.

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***

Estou no Japão pela terceira vez desde que escrevi o último post neste blog há um ano e meio. O motivo, pesquisa de campo sobre ceramista estrangeiros residentes no país, na Universidade de Kanagawa. A partir de hoje tentarei ser mais assídua na partilha de conhecimentos, situações e experiências de uma portuguesa entre o Brasil e o Japão.

Bordando Design

“Bordando Design” é o nome da exposição que permanecerá até o dia 29 de Outubro na Galeria Vermelho em São Paulo. Uma parceria entre 15 consagrados designers brasileiros e várias artesãs, mães da ACTC (Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos e Transplantados do Coração), o projeto promove  o leilão das peças, cujos fundos serão revertidos para a associação.

A ideia do bordado surgiu do projeto da associação denominado “grupo Maria Maria”, que se dedica ao desenvolvimento de habilidades artesanais às mães acompanhantes das crianças e adolescentes com problemas de coração. A exposição tem também como objetivo discutir as fronteiras entre arte e artesanato e valorizar a cultura popular.

O resultado, 15 peças elaboradas por 15 designers, entre os quais os nikkei Jun Sakamoto e Kimi Nii, com contribuições em bordado das artesãs.

peças de Kimi Nii com bordado de várias artesãs
luminária por Jun Sakamoto com bordados por Ana Claudia Bento dos Santos
Serviço

Evento: Leilão “Bordando Design”
Onde: Galeria Vermelho – Rua Minas Gerais, 350
Quando: de 11 a 26/10
Horário: de terça a sexta das 10h às 19h; sábado das 11h às 17h
Informações: (11) 3138-1520 – galeriavermelho.com.br

http://www.actc.org.br/

I Encontro Internacional de Ceramistas na USP

Um mês se passou após o término do I Encontro Internacional de Ceramistas na USP e finalmente tenho um tempo para organizar meu pensamento e fazer alguns apontamentos sobre o evento.

Para quem não ficou sabendo, o I Encontro Internacional de Ceramistas na USP foi, como o nome revela, o primeiro encontro deste tipo realizado no espaço da Universidade de São Paulo, mais concretamente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

Contando com a notável ceramista e professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) Norma Grinberg na coordenação, ao lado da Profa. Dra. Christiane Bertoldi (FAU) e Silvia Noriko Tagusagawa (ECA), o evento aconteceu entre os dias 22 e 25 de Março e contou com a participação de vários ceramistas e especialistas na área.

Durante o evento o público teve a oportunidade de observar ao vivo e em tempo real a prática criativa de seis ceramistas de diferentes nacionalidades e ainda ouvir outros tantos falar sobre seu processo de criação.

A América do Sul, em geral, e o Brasil, em particular, estiveram presentes na pele de vários artistas, como a própria Norma Grinberg, apesar de sua participação apenas como coordenadora e mediadora do evento.

O Japão em particular esteve apenas presente na pele de Toshiyuki Ukeseki e na apresentação da sua pesquisa sobre esmaltes. No entanto, através da prática criativa do ceramista chinês Jackson Li pudemos observar algumas técnicas e ideais estéticos comuns à cerâmica oriental.

Portugal esteve também presente, mas apenas no público. Não me estou referindo à minha pessoa com certeza, mas sim à do arquiteto e ceramista Alberto Cidraes, que até deu um pulinho no palco para apresentar o amigo de longa data Toshiyuki Ukeseki e abrir uma garrafa de cachaça num brinde à rápida recuperação do Japão.

Sigamos então para as minhas impressões pessoais. Ainda que essencialmente direcionado a ceramistas, que não é o meu caso, apesar de algumas experimentações recentes que darei a conhecer no final do post, o Encontro me proporcionou uma oportunidade de alargar o meu entendimento sobre cerâmica. Através dele pude extrapolar a minha visão da cerâmica do ponto de vista arqueológico, antropológico e sociológico e entender melhor a manipulação desse material como processo criativo e artístico.

Entre as apresentações que mais me marcaram devo enunciar as de Jacques Kauffman (Suiça), pela sua associação da cerâmica à equação tempo/espaço/matéria; a de Toshiyuki Ukeseki (Japão), com sua pesquisa sobre os esmaltes tenmoku, técnica tradicional japonesa de origem zen-budista, intimamente relacionada à cerimônia do chá; Tapio Yli-Vikari (Finlândia), pela sua apresentação sobre design e a ponte com a cerâmica japonesa; e a vídeo-instalação-performance de Benedikt Wiertz (Brasil), relacionando cerâmica, corpo e cultura japonesa, que infelizmente não consegui encontrar em nenhum lugar para mostrar aqui.

E em baixo as minhas experimentações “artísticas” (com muitas aspas e ainda mais pitadas de ironia). Enjoy ^.^

minhas tacinhas de chá

Site do I Encontro Internacional de Ceramistas:

http://sites.google.com/site/encontrodeceramistas2011/

A azulejaria portuguesa no design nipo-brasileiro

Sábado passado tive a feliz oportunidade de encontrar a designer Rachel Hoshino no evento em prol da recuperação do Japão aqui anunciado, que tomou lugar na incrível loja Japonique (vide post anterior).

Quando pesquisei sobre o trabalho da designer pelos meandros da web, fiquei com a pulga atrás da orelha. Explico: no site, uma coleção intitulada ‘Lisboa’, inspirada nos motivos do azulejo português; em blogs, referia-se sua descendência japonesa e européia. Me perguntava: seria Rachel Hoshino descendente de portugueses? Poderia ela concretizar essa conexão que tenho procurado mostrar entre Portugal, Brasil e Japão, através do design?

Rachel Hoshino admite, sim, ter forte influência de Portugal  nas suas criações. Por um lado, e como bem suspeitava, Rachel tem uma pitada de Portugal no sangue. Sua avó materna era filha de portugueses. Foi através dela que Rachel começou a se interessar por cerâmica e azulejos, já que na casa da avó tinha uma grande coleção de porcelanas e painéis de azulejos coloniais.

Azulejo colonial português.

Mas  a conexão com Portugal não é apenas genética. Ela tem também um caráter bem prático. Isto porque o principal parceiro da designer, a Porcelana Teixeira,  também é de família portuguesa. Ademais, o atual dono da empresa é originário da cidade de Aveiro, no litoral centro-norte de Portugal, e teve sua formação na famosíssima Vista Alegre, onde trabalhou toda sua família desde os tempos da monarquia. Praticamente uma linhagem de fabricantes de porcelana! Para quem não sabe, a Vista Alegre é a principal fabricante de porcelana em Portugal, fundada no século XIX!

Porcelana estilo clássico da Vista Alegre.

A influência portuguesa da designer não termina aqui. Inspirada por todas estas coincidências, Rachel viajou para Portugal em 2007 para fazer pesquisa. Adotei Portugal como país do coração, afirma. As estações de metro de Lisboa, as construções do Porto, os solares  do Norte, a feira livre de Barcelos, são marcos na minha vida.

Mas o que mais marcou Rachel em toda a visita foi o Museu das Janelas Verdes (ou Museu Nacional de Arte Antiga) em Lisboa. Ali ela visitou a sessão sobre a ocupação portuguesa no Oriente e se impressionou com os objetos que nasceram do hibridismo das diferentes culturas. Com certeza, mais um elemento inspirador nas criações da designer.

As peças de Rachel Hoshino misturam motivos portugueses, temáticas japonesas e influências brasileiras, como podemos ver no título e descrição de suas coleções.

Coleção Lisboa

Desenhos inspirados na azulejaria portuguesa e estampas lisérgicas dos anos 60 decoram peças e utilitárias, como vasos, cofres e pratos.

 

Coleção Tampopo

Dente-de-leão em japonês. O equilíbrio entre os princípios de leveza e rigidez estrutural, e de geometria perfeita e aleatoridade faz desta flor um objeto de culto entre os japoneses. Explorando estes conceitos, a coleção reproduz a natureza: Tampopo se espalha ao vento e pousa sobre as peças.


Coleção Brasileirinho

O verde e o amarelo se combinam ao tico-tico do fubá para comemorar, com ritmo e leveza, nossa brasilidade.

(fotos e textos das coleções retirados do site da designer: http://www.hoshino.com.br/index_en.htm )