Castella do Paulo, um tesouro gastronômico luso-japonês em Lisboa!

Sábado passado tive a oportunidade de conhecer um lugar incrível,  graças à dica da talentosa ilustradora Yara Kono, com quem tive o prazer de almoçar e sobre quem já escrevi num post anterior.

Castella do Paulo, na Rua da Alfândega 120, Lisboa

O lugar é uma pastelaria luso-portuguesa, chamada “Castella do Paulo” e localizada no Terreiro do Paço, pertinho da Casa dos Bicos, uma das regiões mais interessantes de Lisboa.

O nome do lugar vem do famoso pão-de-ló introduzido pelos portugueses no Japão no século XVI, onde ficou conhecido como “castella” (pronuncia-se “castera”). Como sabemos, os primeiros europeus a chegar ao Japão foram os missionários jesuítas portugueses em 1543, apesar de Marco Polo já ter falado, em 1291, de um lugar chamado “Ji-pangu”, que quer dizer “local onde o sol nasce” em chinês. Além da introdução do cristianismo e das armas de fogo, a presença portuguesa no Japão, que durou cerca de 50 anos e terminou com a expulsão dos jesuítas, deixou também marcas na cultura nipônica.

A arte namban, por exemplo, que significa “bárbaros do sul” (“nanban-jin”), retrata os viajantes portugueses, suas trocas comerciais no Japão e a história da sua viagem marítima, tudo do ponto de vista dos japoneses. Ela inclui pinturas, esculturas, cerâmica, mobiliário e outros ornamentos, mas os objetos mais representativos são os famosos biombos, como o de baixo, que faz parte do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Biombo com o selo de Kano Naizen (1593-1601),
da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.
Detalhe do biombo com o selo de Kano Naizen (1593-1601), da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Para além da arte, a influência portuguesa pode também ser observada em algumas palavras japoneses, como “pan” (pão), “koppu” (copo), “tempura” (tempero) e a própria “castera”. A origem do nome é uma indefinido, mas alguns defendem que é um diminutivo de “bolo de Castela” (do antigo reino espanhol) ou de “claras em castelo” (no Brasil, clara batida em neve), com as quais o bolo é preparado. Tal como outros elementos da gastronomia portuguesa introduzidos no Japão no século XVI (como o tempura ou os confeitos), a castella adaptou-se ao gosto japonês e hoje é considerada uma iguaria nacional!

E a castella do Paulo é realmente uma iguaria! Único estrangeiro a aprender a confecionar castella na histórica casa Shooken em Nagasaki, a maior cidade produtora de castella do Japão e onde se localizam as melhores e mais antigas casas de confetaria do pão-de-ló japonês, Paulo Duarte é um português com um toque nipônico!

A Castella do Paulo abriu a primeira fábrica artesanal em 1996 na margem sul do rio Tejo (cidade de Seixal), depois de Paulo regressar do Japão, e em 2003 abriu para o atendimento ao público no centro lisboeta, fazendo grande sucesso entre portugueses e turistas.

Apesar de ser chamado de salão de chá, já que o pão-de-ló combina tão bem com a variedade de chás oferecida pela casa, a Castella do Paulo distingue-se pela qualidade da sua pastelaria e também serve almoços caseiros deliciosos, como o teriyaki de hamburger e tofu com vinho do porto que comi no sábado (e ao qual, infelizmente, esqueci de tirar foto)!

E o carro chefe é, claro, a inusitada e incrivelmente deliciosa castella de chá verde! O sabor é indescritível, mas a textura do pão-de-ló é simplesmente perfeita, leve e fofa e maravilhosa!

E além de tudo, a castella vem numa embalagem linda e super cuidada, com um folheto explicando a origem do bolo, como abri-lo e a melhor forma de conservá-lo. Super japonês!

Além do pão-de-ló de chá verde, a casa oferece também a castella simples e a de chocolate e as três podem ser degustadas com vinho do porto, chá frio mugicha ou chá verde sen-cha entre as 17h e as 19h, por apenas 2 euros!

Ademais, a casa confecciona também uma variedade de doces portugueses, japoneses e até franceses, como os famosos macarons, com sabor de chá verde,  chá preto, chocolate, canela e até vinho do porto!

macaron de chá verde!

Como eu sou um zero à esquerda em gastronomia, mas sou boa de garfo, esqueci de anotar o nome do dois bolos que comprei de chá verde e de feijão, mas seguem as fotos mesmo assim! (Atualização: Os bolos são meronpan de chá verde (à esquerda) e anpan de feijão (à deireita) e, claro, o famoso pão-de-ló de chá verde em cima!)

Resumindo, um tesouro gastronômico luso-japonês recomendadíssimo!   Certamente um “must go” para quem estiver de passagem por Lisboa!

Serviço
 
Castella do Paulo – Salão de Chá
Rua da Alfândega, 120 – Lisboa
21 888 00 19
De 2ª a 6ª das 7:30 às 19:30. Sábado das 12:00 às 19:30.
Encerra domingos e feriados.
 
http://www.castella.pt/