Pérolas e sereias japonesas

Ontem fui ver a exposição “Pérolas” no Museu de Arte Brasileira (São Paulo, Brasil) e recordei nostalgicamente a minha passagem pela Baía de Ago, no litoral da prefeitura de Mie (Japão), famosa por suas fazendas de pérolas. Isso foi em agosto de 2013, no pico do verão japonês e foi possível graças a uma bolsa para estudo da língua japonesa da Fundação Japão, que me permitiu fazer uma curta visita de campo à terra natal da ceramista japonesa residente no Brasil, Mieko Ukeseki (Cunha, SP – ver post). Sobre as paisagens naturais da sua terra natal, ela disse:

Eu nasci no interior da província de Mie, muito perto do mar, onde nasce o sol no oceano. Bem no interior. Tem muitas ilhas. Tipo Paratí, só que mar aberto.

Baía de Ago, agosto de 2013.
Baía de Ago, agosto de 2013.
Baía de Ago, wikipedia.
Baía de Ago, wikipedia.

A prefeitura de Mie é uma área majoritariamente rural e uma das mais pobres do arquipélago japonês, de onde saíram vários emigrantes em direção ao Brasil. No entanto, sua região centro-sul, especialmente a litorânea, tornou-se em um importante destino turístico doméstico após a Segunda Guerra, famosa pelos seus frutos do mar, pelas fazendas de pérolas e por um complexo de santuários xintoístas do século 3 chamado Ise Jingu. É na atual cidade de Shima, parte do parque nacional de Ise-Shima, que se localiza a também famosa baía de Ago, onde Mieko Ukeseki nasceu e viveu até aos seus 18 anos. A baía é conhecida pelo cultivo de pérolas, inventado aqui em 1893 por Kokichi Mikimoto.

Kokichi Mikimoto( 1858 - 1954)
Kokichi Mikimoto( 1858 – 1954)

O local é também famoso pelos grupos de mulheres que se dedicam à caça de pérolas naturais desde há cerca de 2 mil anos atrás. Elas são conhecidos como “ama”, mas hoje restam apenas algumas poucas senhoras japonesas (já nos seus 90 anos) que ganham a vida preenchendo os pulmões de ar e mergulhando por longos períodos de tempo nas profundezas do oceano Pacífico, com nada mais do que uma máscara e nadadeiras.

Mergulhadora japonesa "ama". http://www.messynessychic.com/
Mergulhadoras japonesas “ama”.
http://www.messynessychic.com/
"Ama" http://gakuran.com/
“Ama”
http://gakuran.com/

“Ama” (海 女 em japonês), significa literalmente “mulher do mar” e sua existência está registrada já em 750, na mais antiga antologia de poesia japonesa, o “Man’yōshū”. Essas mulheres especializaram-se no mergulho livre a cerca de 30 metros de profundidade, em água fria e usando nada mais do que uma tanga. Utilizando técnicas especiais para prender a respiração por até 2 minutos de cada vez, elas trabalhavam até 4 horas por dia na coleta de vários frutos do mar e, especialmente, a caça de pérolas.

Representação de uma "ama" na obra do mestre xilogravador Utagawa Kuniyoshi (1797 – 1861).
Representação de uma “ama” na obra do mestre xilogravador Utagawa Kuniyoshi (1797 – 1861).

O fato desta atividade ser feita exclusivamente por mulheres devia-se à crença da existência de uma camada isolante extra de gordura no corpo feminino que lhes permitiria manter a respiração por mais tempo do que os homens. Com esta vantagem, elas também podiam ganhar mais dinheiro em uma única temporada de mergulho do que a maioria dos homens de sua aldeia em um ano.

"Ama" http://www.messynessychic.com/
“Ama”
http://www.messynessychic.com/

Depois da Segunda Guerra Mundial e com o crescimento do turismo doméstico no Japão, a nudez das “ama” começou a ser comentada pelos e elas foram forçadas a cobrir-se. Contudo, o fotógrafo japonês Yoshiyuki Iwase (1904-2001) capturou os últimos momentos preciosos de uma tradição que logo começou a desaparecer, “a beleza simples, até mesmo primitiva das Ama.”

640x533xyoshiyukis22.jpg.pagespeed.ic.SkMzPRjlYm  

 640x597xyoshiyukis13.jpg.pagespeed.ic.zVg5aGO_He

Ama já vestidas. http://gakuran.com/
Ama já vestidas.
http://gakuran.com/

Com a falta de mulheres jovens para suceder as mais velhas, aliada à modernização da pesca no Japão, esta prática antiga é cada vez menor.Em 1956, havia 17.611 Ama no Japão, mas a partir de 2010 só 2.174 permaneceram. Destes, quase a metade trabalha região de Shima, na prefeitura de Mie.

Quando visitei a Baía de Ago em agosto de 2013, tive o privilégio de conhecer rapidamente uma dessas senhoras e receber um colar com uma das pérolas colhida por ela. Isto porque eu tive a sorte de escolher almoçar em um pequeno restaurante local que servia frutos do mar grelhados e que pertencia ao seu filho. Surpreendido e orgulhoso da presença de uma estrangeira em área tão remota, ele pegou o colar com sua mãe idosa, que eu apenas vi de relance, e ofereceu-me como gratidão pela minha presença em seu restaurante. Além disso, quando eu estava entrando no barco em direção a uma das muitas ilhas da baía, ele correu em minha direção para me oferecer ainda um sorvete.

IMG_20130712_190423

Na exposição do Museu de Arte Brasileira, é explicado o processo da formação natural de pérolas  no interior de moluscos bivalves e caracóis do mar, assim como a sua antiga tradição de coleta e uso ornamental. Segundo a wikipedia:

Uma pérola é formada quando o tecido do manto da concha é ferido por um parasita, por um ataque de um peixe ou por outro evento que prejudica o aro externo frágil da concha de um bivalve ou de um molusco gastrópode. Em resposta, o tecido do manto do molusco segrega nácar no saco de pérolas, um cisto que se forma durante o processo de cura.

Pérola sendo extraída de uma ostra akoya. Wikipedia.
Pérola sendo extraída de uma ostra akoya. Wikipedia.

No final do século 19, o japonês Kokichi Mikimoto descobriu uma técnica que possibilitava o cultivo artificial de pérolas dentro dos próprios moluscos, provocando a sua produção nos mesmos moldes da natural ao introduzir uma matriz que formará a bolsa perolífera. Esta técnica proliferou-se ao redor do mundo e hoje a empresa de luxo Mikimoto possui lojas em Paris, Nova Iorque, Xangai, Tóquio, entre outras. 

Tudo isto pode ser visto na exposição no Museu de Arte Brasileira, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, até ao dia 28 de setembro.

Mais informações:

Exposição Pérolas FAAP

The Last Japanese Mermaids

Ama the pearl diving mermaids of Japan

Extra:

Cena do filme “Tampopo” (dir. Juzo Itami, Japão, 1985):

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s