De Tokyo ao Mondego: um documentário de Aya Koretzky

Em um dos meus últimos dias em Lisboa, um daqueles dias fastidiosos e nostálgicos de frio e chuva persistente, tive uma feliz surpresa. Graças ao  aviso oportuno da minha mãe, liguei a televisão na RTP2 pensando assistir algum filme japonês que combinasse com  aquele clima quase mordaz.

Para minha grande surpresa, o filme contava a história de uma menina que, com nove anos, se mudou de Tóquio para a região portuguesa do Mondego, junatemente com o pai japonês e a mãe belga.  A menina é Aya Koretzy, diretora do filme e vencedora do Prémio Doclisboa 2011 e do Prêmio Revelação do Festival de Cinema Luso-Brasileiro 2011, pelo seu primeiro filme como diretora “Yama no Anata” (“Para Além das Montanhas”).

O documentário mostra testemunhos dessa experiência diaspórica desde Tóquio, uma das maiores metrópoles do mundo, para uma velha casa sem luz ou água em uma pacata região perto de Coimbra, no vale do rio Mondego. Em forma de fotos e vídeos antigos da família, paisagens nebulosas e montanhosas, cartas trocadas com os amigos que ficaram e testemunhos paterno e materno, fui convidada a entrar numa viagem pessoal, poética e contemplativa.

“Submerjo nas paisagens do Mondego para onde vim morar com os meus pais em criança, deixando para trás Tóquio, a cidade onde nasci. Através da leitura de cartas que troquei com os amigos e a família que permaneceram no país, reflito sobre a nossa vinda para Portugal e relembro o passado na tentativa de reter a memória efémera, numa viagem com os espíritos que permanecem comigo.” – Aya Koretzky 
 

Aya  Koretzy, 29 anos, belgo-nipo-portuguesa, vive e trabalha entre Lisboa e Paris, onde cursa o mestrado em Cinema na Sorbonne. “Yama no Anata”, produzido em 2011, foi exibido no cinema São Jorge, em Lisboa, a 14 de Abril deste ano e passou na televisão pública portuguesa (RTP2) no dia 25 do mesmo mês, data em que se comemora em Portugal o fim da ditadura, comumente conhecido como Revolução dos Cravos.

“Para Além das Montanhas” passará possivelmente em algumas salas de cinema em Portugal e mais algumas vezes na televisão portuguesa. Resta desejar que saia também em DVD para que possamos assistir aqui no Brasil!

“A lyrical ode to what lies beyond, given texture from inky letters and the pixels of home video but sung by goats and crows, Aya Koretzky’s extraordinary debut, submerges us in the Mondego River, invoking spirits and interrogating memories to ask pertinent questions about coming and going and home.” – International Film Festival Rotterdam
 
 
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Castella do Paulo, um tesouro gastronômico luso-japonês em Lisboa!

Sábado passado tive a oportunidade de conhecer um lugar incrível,  graças à dica da talentosa ilustradora Yara Kono, com quem tive o prazer de almoçar e sobre quem já escrevi num post anterior.

Castella do Paulo, na Rua da Alfândega 120, Lisboa

O lugar é uma pastelaria luso-portuguesa, chamada “Castella do Paulo” e localizada no Terreiro do Paço, pertinho da Casa dos Bicos, uma das regiões mais interessantes de Lisboa.

O nome do lugar vem do famoso pão-de-ló introduzido pelos portugueses no Japão no século XVI, onde ficou conhecido como “castella” (pronuncia-se “castera”). Como sabemos, os primeiros europeus a chegar ao Japão foram os missionários jesuítas portugueses em 1543, apesar de Marco Polo já ter falado, em 1291, de um lugar chamado “Ji-pangu”, que quer dizer “local onde o sol nasce” em chinês. Além da introdução do cristianismo e das armas de fogo, a presença portuguesa no Japão, que durou cerca de 50 anos e terminou com a expulsão dos jesuítas, deixou também marcas na cultura nipônica.

A arte namban, por exemplo, que significa “bárbaros do sul” (“nanban-jin”), retrata os viajantes portugueses, suas trocas comerciais no Japão e a história da sua viagem marítima, tudo do ponto de vista dos japoneses. Ela inclui pinturas, esculturas, cerâmica, mobiliário e outros ornamentos, mas os objetos mais representativos são os famosos biombos, como o de baixo, que faz parte do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Biombo com o selo de Kano Naizen (1593-1601),
da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.
Detalhe do biombo com o selo de Kano Naizen (1593-1601), da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Para além da arte, a influência portuguesa pode também ser observada em algumas palavras japoneses, como “pan” (pão), “koppu” (copo), “tempura” (tempero) e a própria “castera”. A origem do nome é uma indefinido, mas alguns defendem que é um diminutivo de “bolo de Castela” (do antigo reino espanhol) ou de “claras em castelo” (no Brasil, clara batida em neve), com as quais o bolo é preparado. Tal como outros elementos da gastronomia portuguesa introduzidos no Japão no século XVI (como o tempura ou os confeitos), a castella adaptou-se ao gosto japonês e hoje é considerada uma iguaria nacional!

E a castella do Paulo é realmente uma iguaria! Único estrangeiro a aprender a confecionar castella na histórica casa Shooken em Nagasaki, a maior cidade produtora de castella do Japão e onde se localizam as melhores e mais antigas casas de confetaria do pão-de-ló japonês, Paulo Duarte é um português com um toque nipônico!

A Castella do Paulo abriu a primeira fábrica artesanal em 1996 na margem sul do rio Tejo (cidade de Seixal), depois de Paulo regressar do Japão, e em 2003 abriu para o atendimento ao público no centro lisboeta, fazendo grande sucesso entre portugueses e turistas.

Apesar de ser chamado de salão de chá, já que o pão-de-ló combina tão bem com a variedade de chás oferecida pela casa, a Castella do Paulo distingue-se pela qualidade da sua pastelaria e também serve almoços caseiros deliciosos, como o teriyaki de hamburger e tofu com vinho do porto que comi no sábado (e ao qual, infelizmente, esqueci de tirar foto)!

E o carro chefe é, claro, a inusitada e incrivelmente deliciosa castella de chá verde! O sabor é indescritível, mas a textura do pão-de-ló é simplesmente perfeita, leve e fofa e maravilhosa!

E além de tudo, a castella vem numa embalagem linda e super cuidada, com um folheto explicando a origem do bolo, como abri-lo e a melhor forma de conservá-lo. Super japonês!

Além do pão-de-ló de chá verde, a casa oferece também a castella simples e a de chocolate e as três podem ser degustadas com vinho do porto, chá frio mugicha ou chá verde sen-cha entre as 17h e as 19h, por apenas 2 euros!

Ademais, a casa confecciona também uma variedade de doces portugueses, japoneses e até franceses, como os famosos macarons, com sabor de chá verde,  chá preto, chocolate, canela e até vinho do porto!

macaron de chá verde!

Como eu sou um zero à esquerda em gastronomia, mas sou boa de garfo, esqueci de anotar o nome do dois bolos que comprei de chá verde e de feijão, mas seguem as fotos mesmo assim! (Atualização: Os bolos são meronpan de chá verde (à esquerda) e anpan de feijão (à deireita) e, claro, o famoso pão-de-ló de chá verde em cima!)

Resumindo, um tesouro gastronômico luso-japonês recomendadíssimo!   Certamente um “must go” para quem estiver de passagem por Lisboa!

Serviço
 
Castella do Paulo – Salão de Chá
Rua da Alfândega, 120 – Lisboa
21 888 00 19
De 2ª a 6ª das 7:30 às 19:30. Sábado das 12:00 às 19:30.
Encerra domingos e feriados.
 
http://www.castella.pt/

Palestras sobre arte nipo-brasileira em Lisboa!

Tenho o prazer de anunciar que, na próxima semana, irei apresentar em duas universidades da cidade de Lisboa palestras sobre as minhas pesquisas na área de estudos nipo-brasileiros!

foto: Fernando Saiki
Cerâmica de Shoko Suzuki.
Foto: Fernando Saiki

A primeira irá acontecer na Universidade Nova de Lisboa, próxima quarta-feira dia 11, pelas 18h30. Sob o título “O Panorama da Cerâmica Japonesa no Brasil”, falarei um pouco sobre a história da imigração japonesa no Brasil e o aparecimento da produção de cerâmica por japoneses e seus descendentes neste contexto. Deixo umas breves considerações em baixo, só para espevitar um pouco o interesse dos leitores e convencê-los a aparecerem por lá!

Apesar da imigração japonesa para o Brasil ter-se iniciado no ano de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos, a produção de cerâmica por artistas nipônicos só começou na década de 60! Querem saber porquê? Bom, então vão ter que comparecer no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova na próxima quarta-feira! Aí eu vou falar dos ceramistas pioneiros no Brasil, como Shoko Suzuki, que já foi tema de um post deste blog, e também dos artistas nipo-brasileiros de segunda e terceira gerações, como a querida Kimi Nii.

foto: Fernando Saiki
Kimi Nii
Foto: Fernando Saiki

A segunda palestra irá acontecer na Universidade Católica Portuguesa, no próximo sábado dia 14, pelas 15h. Nela vou falar sobre um projeto que tem vindo a ser desenvolvido no último ano sob a coordenação da Prof. Dra. Michiko Okano dentro da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. O título da palestra é “O Artesanato Japonês no Brasil”, sendo “artesanato” a palavra mais próxima em português para designar um tipo de arte muito valorizada no Japão que é o “kougei”.

foto: Fernando Saiki
Detalhe de obra em metal de Nobuyoshi Mitsuhashi.
Foto: Fernando Saiki

Durante a palestra, vou explicar o significado da palavra “kougei” para a cultura japonesa e a sua relação com o Movimento Arts & Crafts, que surgiu na Inglaterra no final do século XIX.

O termo “kougei” é traduzido literalmente como “trabalho bem feito”, sendo a junção das palavras “habilidade” (“kou”) e “arte” (“gei”). Dentro desta categoria incluem-se as artes que empregam técnicas sofisticadas, como o trabalho em madeira, metal, papel, laca, a arte da boneca, cerâmica, esmalte, tingimento de tecidos e outras.

foto: Fernando Saiki
Tecidos tingidos de modo natural por Hisako Kawakami.
Foto: Fernando Saiki

Na palestra, vou falar brevemente sobre o surgimento dessas artes no Japão e a sua história no Brasil, que está relacionada à imigração de artistas e artesãos japoneses no período após a Segunda Guerra. Se quiserem conhecer a trabalho destes artistas e suas histórias de vida, assim como as subtilezas da arte kougei japonesa e nipo-brasileira, compareçam no 2º piso do Edifício da Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica, no próximo sábado dia 14, às 15h!

Espero vê-los por lá!!! ^^

Mais informações:

O Panorama da Cerâmica Japonesa no Brasil
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Auditório 1
11 de Abril, às 18h30
Entrada Livre
O Artesanato Tradicional Japonês no Brasil
Universidade Católica Portuguesa – Palma de Cima
Sala de Exposições – Edifício Biblioteca João Paulo II, piso 2
14 de Abril, às 15h
Entrada Livre, necessário marcar presença prévia