Portugal, Brasil e Japão em Cunha

Cunha. Em quatro palavras: Fusca (nela se concentra a maior frota deste tipo de veículos do país), Pinhão (é a maior produtora do Estado de São Paulo), Cerveja (é lá que se fabrica a magnífica Wolkenburg) e Cerâmica (à qual dedicarei este post).

Onde?

Cunha localiza-se no Estado de São Paulo, a meio caminho entre a capital e o Rio de Janeiro, na estrada que leva também a Paraty. A 1.100 metros de altitude, Cunha possui um clima semelhante ao de Campos de Jordão, com temperaturas médias de 22º no verão e 18º no inverno.

História da Cerâmica em Cunha

Cunha é uma das mais importantes cidades produtoras de cerâmica do Brasil. Com uma tradição de cerâmica de baixa temperatura, fabricada tanto pelos índios guaranis que ocuparam a região, quanto pelas chamadas paneleiras (produtoras de cerâmica utilitária de herança ibérica) até recentemente, Cunha ganhou notabilidade pelo desenvolvimento de cerâmica a alta temperatura, técnica inexistente no Brasil até meados do século XX.

A cerâmica de alta temperatura tem origem oriental e foi adotada pelos europeus a partir do século XVI. No Brasil ela começa a ser produzida  a partir de meados do século XX, trazida por imigrantes japoneses com sua técnica de construção de fornos que atingem temperaturas acima de 1.100º.

Foi em 1975 que Cunha teve seu primeiro forno a alta temperatura. O Noborigama construindo sob as direções do ceramista japonês Toshiyuki Ukeseki foi também um dos primeiros do tipo no Brasil.

Mas voltando um pouco no passado, importa contar como tudo aconteceu.

Lisboa, 1970. O recém-formado arquiteto Alberto Cidraes consegue uma bolsa de pós-graduação do governo japonês. Um ótimo pretexto para sair do país, fugindo da ditadura e da possibilidade de ser incorporado no exército para lutar nas colônias portuguesas em África. Parte então para o Japão. Lá começa a se interessar por cerâmica e passa a frequentar ateliês de ceramistas, iniciando suas primeiras experiências com o barro.

Tsuru, 1972. Terminado o curso de pós-graduação, mas ainda com dois meses de bolsa de estudos, Alberto Cidraes decide aproveitar seus últimos momentos no Japão numa aldeia de ceramistas. Em Tsuru, província de Fukuoka, aluga uma casa e instala um ateliê, vizinho aos ceramistas Mieko e Toshiyuki Ukeseki, com quem constrói uma profunda amizade. Passados os dois meses de bolsa, Alberto receia regressar a Portugal, onde seria preso por não se haver alistado no exército. Compartilha então com Mieko e Toshiyuki seues planos de se instalar no Brasil e convida-os a se juntar a ele e criar um grupo de ceramistas.

Brasil, 1973. Alberto e sua esposa chegaram a São Paulo em Julho de 1973. Moraram em vários lugares e tiveram vários trabalhos antes de formarem o grupo Takê, grupo percursor da cerâmica de Cunha, numa pequena aldeia de pescadores do lado oposto a Salvador.

São Paulo, 1975. O grupo Takê desfaz-se e Alberto volta para São Paulo. Pouco depois Mieko e Toshiyuki conseguem finalmente sair do Japão e em conjunto começam a procurar um local para montar um ateliê conjunto.

Cunha, Outono de 1975. Alberto Cidraes, Mieko e Toshiyuki Ukeseki e os irmãos Toninho e Vicco Cordeiro estabelecem-se em Cunha, num antigo matadouro cedido pela prefeitura.

Cunha, Dezembro de 1975. O grupo faz sua primeira queima em Noborigama, construído sob as direções de Toshiyuki.

Atualidade

A cerâmica de alta temperatura queimada em forno Noborigama tornou-se um dos principais cartões de visita de Cunha. Depois da construção do forno comum no Matadouro, que funcionou até 1978, nos anos 80 os ceramistas começam a abrir seus ateliês individuais e a realizar aberturas de fornadas para o público. No final dos anos 80, outros ceramistas paulistanos chegam na cidade e montam seus ateliês.

Atualmente existem 5 ateliês com forno Noborigama em Cunha. Os únicos ceramistas aí estabelecidos que faziam parte do grupo original são o português Alberto Cidraes e a japonesa Mieko Ukeseki.

Em 2005 comemoraram-se os 30 anos da construção do primeiro forno Noborigama de Cunha, com o lançamento do livro 30 anos de Cerâmica em Cunha e a realização do I Festival de Cerâmica da cidade.

Em janeiro de 2009 foi criado o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC)que visa organizar institucionalmente o polo de cerâmica artística do município.

Atualmente, Cunha é um dos mais importantes centros de cerâmica artística da América Latina, com 16 ateliês agrupados na Cunhacerâmica, associação dos ceramistas de Cunha.

Mais informações:

Portal de Cunha 
Ateliê de Alberto Cidraes
Ateliê Mieko e Mário 
Ateliê Suenaga e Jardineiro 
Ateliê Gallery Tokai
Noborigama.com

Política e Sociedade no Japão Contemporâneo

E novamente mais um proposta aos leitores sediados em Portugal.

O Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa organiza mensalmente conferências sobre temas dedicados ao Oriente. Este mês a temática dirá respeito ao Japão. A conferência será proferida por Carmen Schmidt, professora de Sociologia Política e pesquisadora no Japan Research Center da Universidade de Osnabrück (Alemanha), onde pesquisa política e sociedade japonesa. A conferência será dedicada ao tema Civil Religion and Modernization in Japan.  

18 de Junho, às 15h, na Sala 422 (piso 2 do edifício da Biblioteca João Paulo II, na sede da Universidade Católica, em Lisboa). Entrada livre.

E para quem quiser se aprofundar mais sobre o assunto, na internet é possível encontrar alguns artigos escritos por Carmen Schmidt sobre política e sociedade no Japão Contemporâneo. Seguem os links:

The Changing Institutional Framework for Local Democracy in Japan
Japan’s Circle of Power: Legitimacy and Integration of a National Elite
Local level political and institutional changes in Japan: An end to political alienation?
After the Reform: How is Japan’s local democracy changing? 

Gil Vicente em teatro Nô!

Para os leitores portugueses, brasileiros viajantes em terras lusas ou simplesmente curiosos:

A Embaixada do Japão em Lisboa, a propósito das comemorações dos 150 Anos do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre Japão e Portugal que continuam desde o ano passado, está promovendo uma peça do Gil Vicente: “Auto da Barca da Viagem”. O inesperado é que a peça será representada na forma de teatro Nô!

Para quem não sabe, o teatro Nô é uma das mais antigas formas de representação teatral japonesa. Executada desde o século XIV, combina música, dança e poesia. Trata-se de uma arte abstracta, tradicionalmente executada apenas por homens, que tem no vestuário a visualização do espírito e da essência das personagens representadas. (Embaixada do Japão em Lisboa).

E o famoso dramaturgo português Gil Vicente é contemporâneo da época em que se desenvolveu o teatro Nô! Em Portugal é considerado o principal representante da literatura renascentista anterior a Luís de Camões, marcando a passagem da Idade Média para o Renascimento. Foi grandemente influenciado pela cultura popular portuguesa, da qual incorporou muitos elementos. Suas obras caracterizam-se uma forte componente satírica e cômica, possuindo muitas vezes uma temática religiosa.

A peça apresentada pela companhia japonesa ‘Sakurama Kai’ será “Auto da Barca da Viagem” (1517). Nesta obra, duas personagens antagônicas (um anjo e um demônio) recebem nas suas barcas passageiros diferentes para viagens com destinos distintos. Os destinos são o Céu e o Inferno e a viagem é a recompensa pela vida terrena de cada uma das personagens. A obra crítica os vícios comuns da sociedade da época em tom irônico e humorístico.

A peça será exibida no Teatro Nacional D. Maria II, localizado em pleno Rossio, na Praça D. Pedro IV (ou D. Pedro I do Brasil!), no dia 10 de Junho (próxima sexta-feira!) às 21h30.

Dia 11, no mesmo horário e local, será também exibida a peça Nô “Sorin”, sobre Sorin Otomo, um dos poucos samurais japoneses a converter-se ao Cristianismo. Sorin conheceu o missionário Francisco Xavier em 1551 e devido a esse encontro converteu-se sob o nome de Francisco. Entre os jesuítas ficou conhecido como Rei de Bungo, região governada pelo samurai que nela instalou um centro da Igreja Católica do Japão.

Serviço:
 
Teatro Nacional D. Maria II
Praça D. Pedro IV, Lisboa
Telefone: (00351) 213 250 800 
Para mais informações e compra de bilhetes: Teatro Nacional D. Maria II
 
 
Uma parceria Teatro Nacional D. Maria II, Instituto Camões, Centro Cultural de Tóquio e Embaixada de Portugal no Japão.
 

O Japão em 4 Cinemas: exposição e mostra de filmes no Sesc Pinheiros

Foi ontem, dia 3 de Junho, a abertura da exposição “O Japão em 4 Cinemas” no Sesc Pinheiros. Antes da abertura da exposição propriamente dita, a organização passou o documentário “Japão em 4 cinemas” (Brasil, 2011, 40 min), realizado pelos curadores do evento Luis Carlos Pavan e Careimi Ludwig Assmann. Debruçando-se sobre as quatro antigas salas de cinema do bairro da Liberdade (Cine Niterói, Cine Tokyo, Cine Jóia e Cine Nippon), o vídeo mostrou depoimentos que resgatavam a memória afetiva de quem vivenciou a experiência cinematográfica nesses quatro cinemas.

Em cada uma dessas salas o público podia assistir filmes japoneses de diferentes gêneros, produzidos por estúdios japoneses distintos. No antigo Cine Niterói, localizado na Rua Galvão Bueno onde hoje se situa o trecho da Radial Leste, passavam maioritariamente filmes do estúdio Toei, com uma predominância de filmes de época e dramas históricos da época dos samurais. No Tokyo, fundado em 1954 na Rua São Joaquim, onde é hoje uma Igreja Evangélica, o público era maioritariamente feminino pela exibição das produções da Nikkatsu. Eram os chamados “filmes para chorar”, com dramas de juventude, mas também dramas históricos e comédias, entre outros. Já o Cine Jóia, fundado em 1958, exibia filmes mais “Lado B”, de temática violenta ou erótica. Por fim, o Nippon, fundado em 1959 na Rua Santa Luzia, onde é hoje a sede da Associação Aichi Kenjin, passava os filmes do estúdio Sochiku, com comédias, musicais, filmes de yakuza e o cinema realista de Yasujiro Ozu e Mikio Karuse (o chamado género shomin-geki).

Das quatro salas de cinema, a do Cine Niterói era a maior e mais bem equipada. O cinema localizava-se num prédio de vários andares, onde existia também um hotel, um restaurante e um salão de festas. Inaugurado em 1953, o Cine Niterói permaneceu na Galvão Bueno até 1968, ano em que se mudou para a Avenida Liberdade, devido à demolição do antigo prédio para construção da rodovia. Mas aí não permaneceu muito tempo. A sala e o movimento de pessoas eram menores. Em 1984 o Cine Niterói foi fechado. As demais salas fecharam também na mesma época.

Mais informações sobre o Cine Niterói podem ser encontradas na página da web escrita por Francisco Noriyuki Sato.

Um parêntesis: Ao assistir o documentário senti grande tristeza ao perceber como a evolução urbana da São Paulo dos anos 60 (e não só) se deu em função de interesses que não contemplavam a atividade cultural da cidade. Como o caso do Cine Niterói, por exemplo, que apesar de atrair grande movimento para o bairro da Liberdade, promovendo um espaço de troca e convívio cultural, foi demolido para construção de uma rodovia, a Radial-Leste, destruindo uma parte importantíssima da memória da cidade. A sua destruição criou não só um vazio cultural na vida da cidade, mas também, como mostrou o documentário, um vazio na vida de cada uma das pessoas que frequentavam aquele espaço. Para os imigrantes japoneses, essas salas de cinema eram dos poucos locais da cidade onde podiam se comunicar na sua língua materna, saber as novidades do país de origem e simplesmente se sentir em casa.

Depois do término do documentário e muitos aplausos, a exposição com cartazes originais dos filmes japoneses exibidos naqueles cinemas entre as décadas de 50 e 80 foi aberta. Para além dos posters, a exposição possui uma sala onde o público podem assistir a alguns filmes que passavam nesses cinemas, e expositores com objetos tirados da cabine do projetista.

Foto de celular da exposição "O Japão em 4 Cinemas".

O evento inclui ainda, para além da exposição, uma mostra de filmes japoneses de diretores como Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Mikio Naruse, Shohei Iamamura, entre outros.

Mais informações:

Exposição “O Japão em 4 Cinemas”
03/06 a 17/07
Terça a sexta das 10h30 às 21h30
Sábados, domingos e feriados das 10h30 às 18h30.

Mostra de filmes (sempre às terças)
07/6 a 26/7
Programação aqui.
 
Serviço:
SESC Pinheiros
Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros 
Tel: 11 3095-9400
Entrada gratuita