O Japão na Serra da Mantiqueira

Localizada a 1.626 metros de altitude e com uma temperatura média anual de 13º C, a cidade de Campos de Jordão tornou-se local de destino de imigrantes japoneses essencialmente a partir da década de 30. Lá eles buscavam, entre muitas outras coisas, o ar puro da montanha como alívio para doenças respiratórias como a tuberculose.

Mas esse não foi o caso de Masuda-san. Destacado para trabalhar como diretor da representante da empresa japonesa Kikoma em São Paulo no final dos anos 90, após 5 anos Masuda-san recusou regressar à sua cidade natal. Com esposa e filhos morando em Tóquio, Masuda-san demitiu-se e mudou-se para Campos do Jordão, onde abriu o restaurante Niji, hoje com 8 anos de casa.

Atencioso e carismático, Masuda-san caprichou no sakê quente e atiçou o fogo da lareira que preenche o amplo salão do segundo andar da avenida Macedo Soares, no centro de Capivari. Não sendo especialista em gastronomia, arrisco-me a afirmar que o tempura de camarão e legumes de Masuda-san foi o melhor que já comi. Um só pedaço crocante, caprichado tanto no tamanho quanto no recheio (serve perfeitamente duas pessoas como entrada), mas com a medida certa do interstício de que nos fala Roland Barthes.

Diz-se que a tempura é uma iguaria de origem cristã (portuguesa): é o alimento da quaresma (tempora); mas afinado pelas técnicas japonesas de anulação e de isenção, é o alimento de outro tempo: não o de um rito de jejum e de expiação, mas de uma espécie de meditação, tão espetacular quanto alimentar (já que a tempura é preparada sob os nossos olhos), em torno desse algo que determinamos, na falta de melhor termo (e talvez em função dos nossos limites temáticos), do lado do leve, do aéreo, do instantâneo, do frágil, do transparente, do fresco, do nada, mas cujo verdadeiro nome seria o interstício sem bordas plenas, ou ainda: o signo vazio. (Roland Barthes em O Império dos Signos).

E para escolha do prato principal tivemos também em conta o frio. Decidimo-nos por um prato que fosse feito diante de nós, aproveitando o calor da cozedura para aquecer nossos corpos e nossas mentes famintas de delícias gastronômicas. Os alimentos foram trazidos crus, numa panela de barro com caldo de missô, que foi colocada sob um suporte, onde Calcífer consumia rapidamente o combustível. À parte, dois ovos também crus, para misturar no caldo e nos alimentos depois de cozinhados a gosto. Noutras palavras, sukiyaki.

(…) todos esses alimentos crus, primeiramente aliados, compostos como num quadro holandês do qual conservariam o contorno do traço, a firmeza elástica do pincél e o verniz colorido (…), pouco a pouco transportados para a grande caçarola em que são cozidos sob nossos olhos, ali perdem suas cores, suas formas e seu descontínuo, ali amolecem, se desnaturalizam, adquirem aquele tom ruço que é a cor essencial do molho (…) (Idem).

Para finalizar, um mochi (doce de feijão) importado do Japão, apresentado numa bela embalagem à qual não resisti tirar foto.

E o cenário: uma Campos do Jordão à luz fosca do pôr do sol, um terraço iluminado e uma sakura (cerejeira) ainda nos seus verdes anos.

 

eu e Masuda-san.
 Mais informações:
Restaurante Yakissoba Niji
Av. Macedo Soares, 121 – Vila Capivari (sobre loja)
Campos do Jordão – SP
(12) 3663-6554
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