Da série ‘notas luso-nipo-brasileiras’ – parte II: encontrinho domingueiro

Condições climáticas:

Domingo. O sol decidiu finalmente aparecer depois de um longo ensaio de dois dias, mas o frio não se acanhou e disputou com ele o momento de estrelato. Frio e sol, a combinação perfeita para um almoço caseiro de domingo.

Cardápio:

> Entrada: Pimentão no forno com sal, azeito e alho, acompanhado de pão italiano. Simples mas delicioso.

> Prato principal: Um karê improvisado. Meio japonês, meio indiano, meio vegetariano. Uma “mistureba”, bem ao estilo brasileiro. Batata, cenoura, madioquinha, kabocha, beringela, abobrinha, couve flor e ervilha.

> Acompanhamento: nada mais adequado que um vinho tinto alentejano, Reguengos, Reserva 2008, para uma tarde fria mas ensolarada de domingo em boa companhia.

> Sobremesa: uvas fresquinhas, torta de morango e pastel de Belém.

Trilha sonora:

> X+Y Midnight Ebisu, uma coletânea de bolero japonês, CD.

> Sylvie Vartan, coletânea, LP.

> Charles Aznavour, Aznavour… Aznavour… Aznavour…, LP.

> Nat King Cole, Nat King Cole Español, LP.

Presenças ilustres:

> Fernanda d’Agostino, querida amiga, assistente de curadoria.

> Letícia Sekito, diretora e dançarina na Companhia Flutuante.

> Yumi Garcia dos Santos, doutora em Sociologia pela USP e pesquisadora de pós-doutorado do Centro de Estudos da Metrópole (São Paulo).

Coincidências luso-nipo-brasileiras:

Para além do cardápio, praticamente uma aculturação culinária, as ligações entre Portugal, Brasil e Japão são de índole pessoal. Para além da minha pessoa, Portuguesa residente em São Paulo desde 2007 e pesquisadora em Cultura Japonesa, temos coincidências que ligam os três países em cada uma das presentes no almoço.

> Fernanda é de descendência portuguesa e interessada em cultura japonesa.

> Letícia morou em Portugal na adolescência, onde aliás iniciou seus estudos em dança no CEM (Centro em Movimento, Lisboa, 90-96). Desenvolve pesquisa sobre a relação entre corpo e cultura, problematizando questões como identidade e cultura japonesa.

> Yumi nasceu na Bélgica, de mãe japonesa e pai brasileiro. Morou em várias cidades do mundo, entre as quais Lisboa, antes de se instalar em São Paulo. Sua pesquisa tem ênfase na sociologia das relações de gênero, tratando os temas família, divisão sexual e internacional do trabalho, imigração, políticas sociais e pobreza, numa perspectiva comparativa entre o Brasil, a França e o Japão.

Memórias fotográficas:

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O Japão na Serra da Mantiqueira

Localizada a 1.626 metros de altitude e com uma temperatura média anual de 13º C, a cidade de Campos de Jordão tornou-se local de destino de imigrantes japoneses essencialmente a partir da década de 30. Lá eles buscavam, entre muitas outras coisas, o ar puro da montanha como alívio para doenças respiratórias como a tuberculose.

Mas esse não foi o caso de Masuda-san. Destacado para trabalhar como diretor da representante da empresa japonesa Kikoma em São Paulo no final dos anos 90, após 5 anos Masuda-san recusou regressar à sua cidade natal. Com esposa e filhos morando em Tóquio, Masuda-san demitiu-se e mudou-se para Campos do Jordão, onde abriu o restaurante Niji, hoje com 8 anos de casa.

Atencioso e carismático, Masuda-san caprichou no sakê quente e atiçou o fogo da lareira que preenche o amplo salão do segundo andar da avenida Macedo Soares, no centro de Capivari. Não sendo especialista em gastronomia, arrisco-me a afirmar que o tempura de camarão e legumes de Masuda-san foi o melhor que já comi. Um só pedaço crocante, caprichado tanto no tamanho quanto no recheio (serve perfeitamente duas pessoas como entrada), mas com a medida certa do interstício de que nos fala Roland Barthes.

Diz-se que a tempura é uma iguaria de origem cristã (portuguesa): é o alimento da quaresma (tempora); mas afinado pelas técnicas japonesas de anulação e de isenção, é o alimento de outro tempo: não o de um rito de jejum e de expiação, mas de uma espécie de meditação, tão espetacular quanto alimentar (já que a tempura é preparada sob os nossos olhos), em torno desse algo que determinamos, na falta de melhor termo (e talvez em função dos nossos limites temáticos), do lado do leve, do aéreo, do instantâneo, do frágil, do transparente, do fresco, do nada, mas cujo verdadeiro nome seria o interstício sem bordas plenas, ou ainda: o signo vazio. (Roland Barthes em O Império dos Signos).

E para escolha do prato principal tivemos também em conta o frio. Decidimo-nos por um prato que fosse feito diante de nós, aproveitando o calor da cozedura para aquecer nossos corpos e nossas mentes famintas de delícias gastronômicas. Os alimentos foram trazidos crus, numa panela de barro com caldo de missô, que foi colocada sob um suporte, onde Calcífer consumia rapidamente o combustível. À parte, dois ovos também crus, para misturar no caldo e nos alimentos depois de cozinhados a gosto. Noutras palavras, sukiyaki.

(…) todos esses alimentos crus, primeiramente aliados, compostos como num quadro holandês do qual conservariam o contorno do traço, a firmeza elástica do pincél e o verniz colorido (…), pouco a pouco transportados para a grande caçarola em que são cozidos sob nossos olhos, ali perdem suas cores, suas formas e seu descontínuo, ali amolecem, se desnaturalizam, adquirem aquele tom ruço que é a cor essencial do molho (…) (Idem).

Para finalizar, um mochi (doce de feijão) importado do Japão, apresentado numa bela embalagem à qual não resisti tirar foto.

E o cenário: uma Campos do Jordão à luz fosca do pôr do sol, um terraço iluminado e uma sakura (cerejeira) ainda nos seus verdes anos.

 

eu e Masuda-san.
 Mais informações:
Restaurante Yakissoba Niji
Av. Macedo Soares, 121 – Vila Capivari (sobre loja)
Campos do Jordão – SP
(12) 3663-6554

Portugal e Japão estreitam laços através da música

Em Janeiro deste ano, na minha estadia em praias lusitanas, tive a feliz oportunidade de conhecer, por indicação de uma amiga brasileira, dois artistas japoneses residentes em Portugal, na cidade do Porto. Hajime Fujita, coreógrafo, dançarino e performer, e sua companheira Hana Kogure, cantora e compositora, acompanharam-nos durante nossa estadia na capital portuense e viajaram também para Lisboa, marcando presença no show do artista nipo-brasileiro Dudu Tsuda na Livraria Fabula Urbis (sobre os shows de Dudu Tsuda em Lisboa e Porto reservarei um outro post).

A cidade do Porto sob um olhar luso-nipo-brasileiro

Apesar de Portugal ser meu país de nascimento e residência até há aproximadamente três anos atrás, a cidade do Porto era uma vergonhosa falha no meu currículo de lisboeta. Embora tivesse viajado anteriormente para a capital nortenha na infância e adolescência, foi graças a Hajime que pude conhecer o Porto no olhar de um estrangeiro aí residente há vários anos. O roteiro incluiu a famigerada Rua de Miguel Bombarda, onde populam galerias de arte e incíveis lojas de design, passeios noturnos na Foz, o interessantíssimo e incrivelmente barato Mercado do Bulhão e, como não poderia deixar de ser, a vida noturna da Rua da Galeria de Paris, do antigo cinema e atual clube noturno e casa de show Passos Manuel e no incrível espaço de intervenção cultural Maus Hábitos.

E foi aí que pude conhecer a incrível voz de Hana Kogure, que cedeu seus talentos à música de Dudu Tsuda. E ele retribui ao som do piano tocando “Chocolate”, composta e cantada por ela. Segue o vídeo gravado no show realizado no Maus Hábitos (cortesia de Hajime Fujita):

Hana Kogure: um intercâmbio luso-nipônico

Amanhã termina a residência artística Palavras ao Vento, iniciada no dia 2 de Maio e que teve como objetivo o intercâmbio musico-literário entre a cantora japonesa Hana Kogure e o poeta português Tiago Patrício.

A pesquisa, da cultura tradicional do Japão e de Portugal ocorre na cidade, na Fábrica Braço de Prata, no lado Oriental de Lisboa. As canções estão envolvidas por todas estas influências da tradição e da modernidade e pretendem ser algo de novo, experimentais mas concretas, precárias mas fundadas na palavra, na performance poética e musical. (Palavras ao Vento)

O resultado do projeto será apresentado entre os dias 13 e 15 de Maio às 23h na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.

Biografia Hana Kogure

Nascida em 1983 em Chiba, Japão, desde 1999 que leva concertos a todo o Japão.

A presença em Portugal tem sido marcada por concertos em vários pontos do país, como no espaço Maus Hábitos (Porto, 2008/2009/2010), no Cabaret Maxime (Lisboa, 2009), no Espaço Nimas, no evento “Japan in Lisbon” (Lisboa, 2009), Bixo Mau (Caldas da Rainha, 2011), entre outros em Lisboa, Porto, Coimbra e Caldas da Rainha.

Em 2008 recebe o convite de Norberto Lobo para participar no concerto que teve lugar no claustro do Museu de Olaria de Barcelos, e colaborando ainda no espetáculo de performance de dança de Hajime Fujita no Terreiro do Paço em Lisboa no mesmo ano.

Segue então o vídeo de umas das minhas músicas favoritas,”Andorinha”. Letra em japonês, cantada num lamento que remete para o tradicional fado, acompanhada de violão . E, claro, a andorinha, pássaro tão presente e querido em terras lusitanas.

Recordações

E, para finalizar, algumas memórias fotográficas da estadia no Porto:

Mais informações:

Hana Kogure
http://kogurehana.com/
http://www.myspace.com/hanakogure
 
 Dudu Tsuda
http://www.myspace.com/dudusolo
 
Residência artística ‘Palavras ao Vento’   
http://www.palavras-ao-vento.com/
 
Fábrica Braço de Prata
Rua da Fábrica de Material de Guerra, 1, Lisboa
http://bracodeprata.net/
  
Maus Hábitos
Rua Passos Manuel, 178, 4º andar, Porto
http://www.maushabitos.com/
  
Galeria de Paris
Rua Galeria de Paris, 56, Porto
http://galeriadeparis.com/