I Encontro Internacional de Ceramistas na USP

Um mês se passou após o término do I Encontro Internacional de Ceramistas na USP e finalmente tenho um tempo para organizar meu pensamento e fazer alguns apontamentos sobre o evento.

Para quem não ficou sabendo, o I Encontro Internacional de Ceramistas na USP foi, como o nome revela, o primeiro encontro deste tipo realizado no espaço da Universidade de São Paulo, mais concretamente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

Contando com a notável ceramista e professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) Norma Grinberg na coordenação, ao lado da Profa. Dra. Christiane Bertoldi (FAU) e Silvia Noriko Tagusagawa (ECA), o evento aconteceu entre os dias 22 e 25 de Março e contou com a participação de vários ceramistas e especialistas na área.

Durante o evento o público teve a oportunidade de observar ao vivo e em tempo real a prática criativa de seis ceramistas de diferentes nacionalidades e ainda ouvir outros tantos falar sobre seu processo de criação.

A América do Sul, em geral, e o Brasil, em particular, estiveram presentes na pele de vários artistas, como a própria Norma Grinberg, apesar de sua participação apenas como coordenadora e mediadora do evento.

O Japão em particular esteve apenas presente na pele de Toshiyuki Ukeseki e na apresentação da sua pesquisa sobre esmaltes. No entanto, através da prática criativa do ceramista chinês Jackson Li pudemos observar algumas técnicas e ideais estéticos comuns à cerâmica oriental.

Portugal esteve também presente, mas apenas no público. Não me estou referindo à minha pessoa com certeza, mas sim à do arquiteto e ceramista Alberto Cidraes, que até deu um pulinho no palco para apresentar o amigo de longa data Toshiyuki Ukeseki e abrir uma garrafa de cachaça num brinde à rápida recuperação do Japão.

Sigamos então para as minhas impressões pessoais. Ainda que essencialmente direcionado a ceramistas, que não é o meu caso, apesar de algumas experimentações recentes que darei a conhecer no final do post, o Encontro me proporcionou uma oportunidade de alargar o meu entendimento sobre cerâmica. Através dele pude extrapolar a minha visão da cerâmica do ponto de vista arqueológico, antropológico e sociológico e entender melhor a manipulação desse material como processo criativo e artístico.

Entre as apresentações que mais me marcaram devo enunciar as de Jacques Kauffman (Suiça), pela sua associação da cerâmica à equação tempo/espaço/matéria; a de Toshiyuki Ukeseki (Japão), com sua pesquisa sobre os esmaltes tenmoku, técnica tradicional japonesa de origem zen-budista, intimamente relacionada à cerimônia do chá; Tapio Yli-Vikari (Finlândia), pela sua apresentação sobre design e a ponte com a cerâmica japonesa; e a vídeo-instalação-performance de Benedikt Wiertz (Brasil), relacionando cerâmica, corpo e cultura japonesa, que infelizmente não consegui encontrar em nenhum lugar para mostrar aqui.

E em baixo as minhas experimentações “artísticas” (com muitas aspas e ainda mais pitadas de ironia). Enjoy ^.^

minhas tacinhas de chá

Site do I Encontro Internacional de Ceramistas:

http://sites.google.com/site/encontrodeceramistas2011/

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Tokyo Sonata e a família japonesa contemporânea

Dirigido por Kiyoshi Kurosawa em 2008, o filme Tokyo Sonata sai da linha de gênero do autor (maioritariamente filmes de terror com generosas pitadas de comédia e surrealismo) para retratar o Japão contemporâneo, centrando-se nas relações familiares e conjugais.

No entanto, Kurosawa já antes se debruçara sobre a falta de comunicação entre casais em “Ilusões Inúteis” ( Ôinaru gen’ei, 1999), filme no qual retrata a vida cotidiana de um jovem casal e suas tentativas vãs de preservar a relação, em meio a situações que carecem de qualquer senso de realidade.

Apesar de não diretamente relacionado ao gênero comumente denominado de “cinema fantástico”, Tokyo Sonata não carece da sua parte de surrealismo e absurdo, no momento em que atinge o clímax e se tenta uma resolução para o final.

Podemos dizer que a maioria dos filmes de Kiyoshi Kurosawa retratam a forma como a sociedade modela o indivíduo, indivíduos obcecados por algum projeto excêntrico ou como os mecanismos sociais se desintegram quando confrontados com o todo irracional. E a temática de Tokyo Sonata, ainda que de cariz familiar, engloba tudo isso.

Tokyo Sonata retrata então o cotidiano de uma “típica” família japonesa, partindo da situação de inesperado desemprego do pai para desenrolar a trama. Kurosawa faz uma caricatura da atual situação do Japão, caracterizada por uma crescente recessão e, consequentemente, pela perda da estabilidade laboral.

O desmantelamento da “empresa-família”, o desemprego, a baixa taxa de natalidade e o completo desmantelamento da estrutura familiar tradicional, são questões que têm afligido o Japão desde meados dos anos 90 e que continuam se agravando até aos dias de hoje.

Kurosawa parte dessa conjuntura econômica e social do Japão para tratar sobre família, centrando-se nas suas relações internas e no questionamento de papéis sociais pré-estabelecidos. Ao mostrar uma relação conjugal completamente segregada e separada por papéis sociais de gênero bem definidos e com limites completamente rígidos, Tokyo Sonata permite uma profunda discussão acerca das relações familiares, de casamento e gênero no Japão de hoje.

Ficha Técnica:
Título:トウキョウソナタ (Tokyo Sonata)
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa, Max Mannix, Sachiko Tanaka
Elenco: Teruyuki KagawaKyôko Koizumi and Yû Koyanagi
Ano: 2008
 
Trailer Oficial:
http://youtu.be/gI9AoCOej38