Cerâmica e Kimonos

A estadia lusitana que relatei nos últimos posts, e sobre a qual ainda devo aos leitores alguns relatos, levou-me também a Paris, onde tomei conhecimento do trabalho peculiar da designer norte-americana Karen LaMonte.

LaMonte aborda em seus trabalhos o tema da vestimenta como uma metáfora para a identidade, apontando a disparidade entre a pele natural e a pele social, esta última vista como algo usado para obscurecer e esconder, para proteger o indivíduo e projetar uma pessoa. Ela retrata a roupa com um divisor entre o espaço público e o privado, entre transparência e transitoriedade.

É a partir desse conceito que LaMonte desenvolve o seu trabalho peculiar: esculturas em vidro, bronze e cerâmica de vestimentas sem corpo em tamanho real. Estas vestimentas incluem também uma série de kimonos perfeitamente esculpidos em cerâmica.

Através das vestimentas, Karen LaMonte questiona sutilmente os temas de identidade humana e feminina. Marcas de um corpo ausente, os tecidos voluptuosos em cerâmica exprimem, no entanto, um movimento, uma via, uma mistura sublime entre ausência e presença.
Através das roupas que aprisionam os corpos, a artistas capta os reflexos fugazes de mulheres, crianças ou idosos no interior de espelhos. Como sombras espectrais, as suas faces se congelam num ambiente fantasmagórico no limite do irreal e desaparecem rapidamente quando a luz muda. Expostas numa semi-obscuridade, as obras de Karen LaMonte conduzem o visitante a um mundo fascinante e fantástico. (http://www.nordmag.com/culture/musees/sars_poteries/musee_sars_poteries.htm)

As esculturas de Karen LaMonte podem ser vistas  no Museu de Cerâmica de Sars-Poteries até 13 de Março.

“Refléctions Feminines”
Nov 18, 2010- March 13, 2011
Musée-atelier départemental du Verre
1, rue du Général de Gaulle
Sars-Poteries
museeduverre@cg59.fr

Mais informações sobre a artista: http://www.karenlamonte.com

Negociações e identidades

Depois de um interlúdio de um mês por motivos de força maior (ou férias em terras lusitanas com a família) volto ao tempo acelerado que corre sem parar nesta multicultural (e quase tropical) São Paulo.

E é sobre essa multiplicidade do Brasil que vou falar um pouco neste post, através de uma historinha real que sucedeu comigo no aeroporto de Madrid, voltando de Lisboa para o além-mar.

Habituada a um padrão étnico europeu, em que muitas vezes (mas cada vez menos) etnia e nacionalidade são uma única coisa, tive uma agradável surpresa no portão de embarque para São Paulo em Madrid.

Em Lisboa, apesar de os portugueses estarem cada vez mais longe de fazer parte de uma etnia só (de que na verdade nunca fizeram mas que alguns insistem em apontar), a maioria dos asiáticos que circulam nas ruas iluminadas pelo Tejo são ou imigrantes chineses ou turistas japoneses, que se reconhecem de longe pelas vestimentas (geralmente shorts, chapeuzinho e ténis branco), mapa numa mão, câmara fotográfica na outra e ar de perdidos. Esses estereótipos podem talvez servir para identificar a nacionalidade de alguém em Portugal ou noutro país da Europa, mas o que eu me tinha esquecido é que eles estão longe de serem úteis na realidade brasileira.

Enfim, a historinha que vos quero contar é a seguinte. Voltando de Portugal com uma quantidade de malas digna de uma passageira brasileira, chego ao portão de embarque em Madrid para São Paulo e sento-me ao lado de um senhor de shorts, chapéu e ténis impecavelmente branco que imediatamente identifiquei como sendo de etnia e nacionalidade japonesa. Pouco depois observo uma senhora também japonesa sentar-se do seu lado e o meu impulso imediato foi imaginá-los a falar japonês e tentar entender alguma palavra (exercício que tento fazer sempre que possível para me posicionar de forma otimista em relação ao meu lento aprendizado do idioma).

Não foi o meu espanto, por um milésimo de segundo, quando os dois começam a conversar em português com sotaque brasileiro. Foi naquele instante e na agradável companhia de Jeffrey Lesser (não pessoalmente mas em versão literária) que percebi que em breve estaria entrando numa outra realidade, num mundo em que etnia e nacionalidade não são de todo sinónimos. Um outro mundo em que as culturas são múltiplas e estão sempre em mutação. E devo dizer que Lesser tem sido um ótimo acompanhante nesse viagem no tempo e no espaço: o tempo acelerado de São Paulo, em que tudo acontece com uma rapidez incomparável, e um espaço multicultural, em que qualquer um, de qualquer parte do mundo, pode ser brasileiro.

P.S. Em breve mais historinhas e outras curiosidades sobre a minha viagem em terras lusitanas.