noo bai e outras conversas

Estou já há três dias em Lisboa mas hoje foi o primeiro em que saí efetivamente de casa para passear pela cidade “menina e moça”.

O passeio começou pela zona das Docas, com a ‘degustação’ de um bifinho (ou deveria dizer bifão?) ao molho Portugália e terminou no incrível ‘noo bai café’, no topo do Miradouro do Adamastor, com belíssima vista para o Tejo.

O percurso por Lisboa  também me levou algumas vezes ao Japão. Passeando pelo Chiado, acabei indo parar na recente aberta Muji, uma loja japonesa de apresentação ‘clean’, talvez até demasiado, e artigos aparentemente pouco especiais.

Durante o passeio pude ainda avistar vários turistas nipônicos, como sempre empunhando os mais recentes modelos de câmeras fotográficos e vários guias de Lisboa em japonês.

No final do percurso, saboreando um chá indiano (chá preto com leite e especiarias) à luz do pôr-do-sol de inverno no Tejo, folheei distraidamente a ‘Time Out’ Lisboa. Reparei então que a crítica gastronômica da edição desta semana debruçava-se sobre o interessantíssimo ‘Kampai’, um restaurante japonês ‘com um menu inspirado pelos Açores’. Infelizmente o texto criticava negativamente o espaço pelo tratamento que era dado aos empregados. Apesar disso, com uma breve pesquisa no Google descobri que o local foi eleito como o melhor japonês de 2010 em Lisboa pelo site ‘Rotas&Destinos’. Independentemente das críticas, despontou-se em mim uma curiosidade em conhecer essa fusão gastronômica nipo-açoriana.

E finalmente, ainda no processo distraído de folhear a referida revista, acabei sendo ‘avisada’ da coleção de Arte Namban em mostra no Museu do Oriente. Dedicada à exposição de ‘obras de pintura, escultura, cerâmica, mobiliário, laca, ornamentos e objetos de culto produzidos após a chegada dos portugueses ao Japão, da última metade do século XVI até à primeira metade do século XVII’, a coleção enquandra ‘o fenômeno namban do ponto de vista da encomenda, dos circuitos existentes, dos mercados a que se destinava e dos agentes que lhe estiveram associados’ (TimeOut Lisboa, nº 168, p. 44). Já está mentalmente agendada a visita para uma ocasião propícia a passeio nas Docas, com parada obrigatória no Museu do Oriente.

Noobai café
Miradouro do Adamastor (Santa Catarina), Lisboa
Terça a Quinta 12h > 21h, Sexta e Sábado 12h > 24h, Domingo 12h > 20h
Contato: 21 346 50 14
http://www.noobaicafe.com/ 

Muji
Rua do Carmo 63-75, Lisboa
http://www.muji.com/ 

Kampai
Calçada Estrela 37, Lisboa
Contato: 213971214 

Encomendas Namban. Os Portugueses no Japão da Idade Moderna
Museu do Oriente – Avenida Brasília, Doca de Alcântara (Norte), Lisboa
Terça a Domingo das 10h às 18h. Sexta das 10h às 22h.
Contato: 213 585 200
http://www.museudooriente.pt

150 Anos Portugal X Japão

 

Neste ano de 2010 que está já chegando ao fim, comemoram-se os 150 anos do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre Japão e Portugal. Para a ocasião a Embaixada do Japão em Lisboa promoveu uma série de eventos, que aconteceram ao longo de todo o ano por todo o país, o último dos quais no próximo dia 17 de Dezembro na cidade da Amadora. Ou seja, por azar e para minha grande decepção, cheguei em Lisboa já no fim das celebrações…

No site da embaixada é possível consultar o calendário dos eventos: http://www.pt.emb-japan.go.jp/2010_PT_JAPAO/calendario_pt_japao_2010.html

Fico especialmente triste por ter perdido a exposição Oriente/ Ocidente/ Miscigenações, principalmente porque foi realizada precisamente na semana que eu vim para Lisboa, entre 5 e 12 de Fevereiro. Aquela incluiu demonstrações e workshops de artes tradicionais japonesas como butoh, sumi-e e ukiyoe na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, visitas guidas ao Museu do Oriente e ciclos de cinema japonês na Cinemateca Portuguesa.

Outro evento interessante parece ter sido o ArteXGastronomiaXEspaço realizado no Edifício Tezenis Caravela em Lisboa, entre 11 de Fevereiro e 15 de Março e que compreendeu apresentações de arte contemporânea, como pintura, gastronomia, arquitetura e desenho, por artistas japoneses residentes em Portugal.

Mais um acontecimento imperdível desta comemoração foi com certeza a mostra de cinema Kurosawa e a Inspiração Noh, onde foram exibidos vários filmes do diretor que demonstram a influência do Teatro Noh, como ‘Kagemusha’ (1980), ‘O Trono de Sangue’ (1957) e ‘Ran’ (1985). A mostra aconteceu nos dias 27 e 28 de Março no Museu do Oriente.

Em Abril e Maio O Japão Num Piscar de Olhos ofereceu um panorama das relações luso-nipônicas através da arte, com seis sessões que abordaram desde a Arte Namban até à Arquitetura Contemporâena no Japão. Mais um evento realizado no incrível espaço do Museu do Oriente, entre 10 de Abril e 22 de Maio.

Quase no mesmo período, entre 16 de Abril e 9 de Maio, e no mesmo local, aconteceu a Festa do Japão, com exposições, apresentações e workshops dedicados às artes tradicionais japonesas (omocha, ikebana, furoshiki, origami, caligrafia, cerimônia do chá, teatro noh, kyogen) e à cultura pop (cosplay e manga).

E, falando de chá, o Museu Nacional do Azulejo recebeu no dia 21 de Julho o Grande Mestre da Casa Urasenke, Sen Soshitsu XVI, para uma demonstração de chado (cerimônia do chá).

Já na cidade do Porto realizou-se em 23 de Setembro uma palestra intitulada Culinária Japonesa e Hábitos Alimentares no Japão – A Influência Portuguesa na Gastronomia Japonesa, pelo Ministro da Embaixada do Japão, Sr. Tatsuo Arai, no âmbito da Japan Week, semana dedicada à cultura japonesa, no Porto.

E para quem quiser saber mais sobre Arte Namban, o Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, possui uma coleção de biombos, à qual se realizou uma visita guiada nos dias 2, 9 e 16 de Novembro. Para quem perdeu a visita, como eu, sugiro aproveitar as férias natalinas para visitar o museu e espreitar os biombos Namban ali expostos.

Outro ciclo de cinema, desta vez dedicado aos excêntricos Nagisa Oshima e Takeshi Kitano, aconteceu na Cinemateca Portuguesa entre 22 e 30 de Novembro.

Já na Fundação Calouste Gulbenkian, realizou-se nos dias 9, 16, 23 e 30 de Novembro um ciclo de conferências dedicado à arte japonesa, com temáticas como a influência dos jesuítas no Japão, a arte da laca (ou ‘lacquer’) na coleção da Gulbenkian, entre outras.

E, para finalizar, uma última mostra de cinema, dedicada ao diretor Yasuzo Masumura, está acontecendo desde 18 de Novembro, na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Os últimos dois filmes da mostra serão exibidos ainda esta semana. Para quem se interessar seguem as informações disponíveis no site da Embaixada do Japão em Portugal:

Yasuzo Masumura – Ciclo de Cinema

Yasuzo Masumura nasceu em Kofu, em Honshu. Depois de ter desistido de um curso de direito, na Universidade de Tokyo, trabalhou como director-assistente nos estúdios Daiei, mais tarde regressando à universidade para estudar filosofia; licenciou-se em 1949. Recebeu uma bolsa de estudo permitindo-o estudar filmografia em Itália, no ‘Centro Sperimentale di Cinematografia’, sob orientação de Michelangelo Antonioni, Federico Fellini e Luchino Visconti. Regressou ao Japão em 1953, e a partir de 1955 trabalhou como director secundário em filmes produzidos por Kenji Mizoguchi e Kon Ichikawa, antes de realizar o seu próprio filme, Kisses, em 1957. Durante as três décadas seguintes realizou cerca de 60 filmes, em géneros variados. O seu trabalho é destacado pela sátira negra e estilo fluído. Alguns dos seus filmes conhecidos são: Red Angel, Black Test Car, Giants and Toys, Blind Beast e Hoodlum Soldier.

Programa:
< 18 Nov., 17h15 – Les Baisers – 1957< 19 Nov., 14h00 – Giants and Toys – 1958
< 25 Nov., 17h15 – Le Gars des Vents Froids – 1960
< 26 Nov., 14h00 – A Wife Confesses – 1961
< 2 Dez., 17h15 – Le Mari était là – 1964
< 3 Dez., 14h00 – La Femme de Seisaku – 1965
< 9 Dez., 17h15 – Manji – 1964
< 10 Dez., 14h00 – The Hoodlum Soldier – 1965
< 16 Dez., 17h15 – Nakano Spy School – 1966
< 17 Dez., 14h00 – Red Angel – 1966

Local: Escola Superior de Teatro e Cinema, Avenida Marquês de Pombal, 22 B, na Amadora
Entrada Livre
Organização: Embaixada do Japão e Japan Foundation, com o apoio da Escola Superior de Teatro e Cinema.http://www.pt.emb-japan.go.jp/culturaeducacao11.html#masumura

Extreme Private Eros: Love Song 1974

Filmado a preto e branco, maioritariamente à base de equipamento caseiro, com momentos em que voz e imagem estão completamente discincronizados e algunas cenas desfocadas, inclusive, e felizmente, uma cena frontal de parto, Extreme Private Eros: Love Song 1974 é tão interessante quanto perturbante .

O filme documenta a trajetória de Miyuki Takeda, uma feminista radical de 26 anos, com a qual o diretor Kazuo Hara viveu durante 3 e teve um filho. O período do filme vai desde 1972 a 1974, durante o qual Hara retrata a vida da ex-mulher após a separação.

A trajetória de Miyuki vai desde mudar-se para Okinawa para morar com uma mulher, namorar um soldado negro norte-americano do qual engravida e trabalhar numa comuna de mulheres grávidas em Tóquio. Na cena mais chocante, filmada numa sequência única, frontal e sem cortes, Miyuki dá a luz uma criança mestiça sem qualquer ajuda e sem a presença de ninguém, a não ser o diretor e sua esposa Sachiko, que se limita a segurar o microfone do lado dela.

Perante isto, não admira que o filme tenha sido considerado ofensivo para a sociedade japonesa e alvo de críticas. Mas a cena final, de uma banheira tipo ofuro cheia de bebés e recém-nascidos, que tomam banho com uma das mães da comuna de mulheres, abafa qualquer impulso preconceituoso que possa ter sido sentido ao longo do filme e remete-nos para um sentimento positivo e de aceitação, possibilitando novas visões e um significado mais profundo para a mensagem de Hara.

Cena em que Chichi, uma menina de 14 anos dançarina  num clube noturno de Okinawa que Miyuki frequenta, relata a sua desistência da escola.

Parallel Nippon ou um Japão paralelo

Estes últimos dois dias tem sido ricos em pretextos para encontrar pessoas admiráveis mas também muito queridas, com vários interesses em comum, mas com as quais acabo quase sempre me cruzando graças à cultura japonesa.

Ontem, o primeiro desses pretextos foi a abertura da exposição “Parallel Nippon – Arquitetura Contemporânea Japonesa 1996-2006”, no Instituto Tomie Othake. Nas quatro salas dedicadas a  fotografias de vários exemplos de arquitetura japonesa contemporânea, fiquei impressionada com os exemplares de edifícios habitacionais, empresariais e institucionais, divididos entre as temáticas ‘Cidade – o centro e a periferia’, ‘Vida – do nascimento ao funeral’, ‘Cultura – o meio ambiente, a informação e as artes’, e ‘Moradia – adaptação ou afastamento’. Mas a sequência que mais me tocou foi a dedicada à arquitetura de museus, onde me deparei com o exemplo de um museu de folclore e de um ateliê de cerâmica, com as quais me identifiquei mais em função da minha área de pesquisa.

Após uma breve confraternização motivada pelo encontro entre pessoas queridas, acompanhada de champagne e delícias gastronômicas cujo nome desconheço (o rolinho de pato com molho de pitanga é o único que lembro, não por acaso), alguns me acompanharam até casa, não antes de um pulinho na padaria para preencher algum espaço que pudesse ter sido provisioriamente disfarçado perante as iguarias anteriores.

Nos esperando em casa estavam mais indivíduos queridos e esfomeados, não apenas por comida, mas também por uma conversa à qual denominamos de ‘estudo’, pela sua  repetição amiudada e metódica. O ‘aprendizado’ estendeu-se até depois da meia-noite, abrindo um espaço no terreno já fértil para o surgimento de idéias e projetos vários, a concretizar até Fevereiro do próximo ano. Foi uma ótima aspiração para o Ano Novo!

E depois do brinde com champagne e shochu, uma bela noite de sono foi a passagem perfeita para mais um dia rico em encontros, programados ou casuais, com um tom de despedida, ainda que temporária.

Depois da minha última aula sobre a família no Japão contemporâneo, uma cerveja gelada acompanhando desabafos entusiastas (ainda que levemente monotemáticos) acabaram desaguando num agradável entrecruzar de conversas informais. O pretexto para o encontro era num outro destino, para onde acabámos carregando essa leveza e arrebatamento inspirados por experiências e interesses em comum.

Entre sucos inesperados e copos de vinho branco, fomos apreciando a reunião de personagens admiráveis, uns nossos conhecidos, outros nem tanto. O motivo da reunião de tantas personalidades de destaque foi o lançamento do livro “Cecília Hirata – Vida e família de uma mulher cosmopolita” de Yumi Garcia dos Santos.

Depois dos encontros e seus pretextos, que proporcionaram o fluir de trocas e energias positivas, voltar para casa revelou-se um processo quase doloroso. Mas a memória serve nada mais do que para reproduzir sensações neste caso aprazíveis, e escrever sobre elas possibilita sua continuação.

PARALLEL NIPPON
Arquitetura Contemporânea Japonesa 1996-2006
Onde: Instituto Tomie Othake
Quando: 8 de dezembro a 30 de Janeiro.

Livro “”Cecília Hirata – Vida e família de uma mulher cosmopolita”
Autora: Yumi Garcia dos Santos
Editora: Terceiro Nome
Onde: numa livraria perto de você.