Shoko Suzuki e Mieko Ukeseki: Duas mulheres ceramistas japonesas entre o Brasil e o Japão

UkeseQueridos seguidores deste blog,

Apesar da ausência de posts há quase dois anos, continuo recebendo mensagens e comentários de novos e velhos seguidores. Assim, para preencher esse vazio de publicações, decidi deixar AQUI o link para a minha dissertação de mestrado sobre a história de vida de Shoko Suzuki e Mieko Ukeseki, intitulada “Duas mulheres ceramistas entre o Japão e o Brasil: identidade, cultura e representação”. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito to programa de Letras-Japonês (Casa de Cultura Japonesa) da Universidade de São Paulo sob a orientação do Professor Koichi Mori. A defesa deu-se em Outubro de 2014, com a presença da socióloga e professora da UFMG Yumi Garcia das Santos e da antropóloga e professora da USP Rose Satiko Hikiji.

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Resumo em português:

Ao apresentar o relato da trajetória de vida de duas mulheres ceramistas japonesas, Shoko Suzuki e Mieko Ukeseki, inserindo-o em seu contexto histórico e sociocultural, este trabalho tem como objetivo apresentar as construções históricas, representações culturais, experiências pessoais e subjetividades envolvidas na construção da sua identidade. A partir da análise do discurso e da prática destas ceramistas, recolhidos a partir dos preceitos definidos por Daniel Bertaux (1997) como récits de vie (relatos de vida), pretende-se compreender os processos pessoais envolvidos na construção da identidade cultural das duas ceramistas, marcados pela vivência transcultural decorrente da imigração para o estado de São Paulo, Brasil, nas décadas de 1960 e 1970 respectivamente. A história da cerâmica japonesa toma aqui papel relevante para a construção das imagens de japonesidade, traduzidas no discurso e na prática das ceramistas. Contudo, é na apropriação e reinterpretação destas representações em diálogo com suas subjetividades e experiências pessoais que a identidade cultural é recriada. Ao lançar luz sobre o relato pessoal da trajetória de vida de duas ceramistas japonesas no Brasil, esta pesquisa pretende também contribuir para iluminar vários aspetos da história, sociedade e cultura do Japão e do Brasil do último século, em especial, a situação das mulheres na cerâmica nipônica, a imigração de artesãos e artistas japoneses para o Brasil, os processos de construção da identidade cultural japonesa através do artesanato e da cerâmica e os processos pessoais envolvidos na criação de uma identidade nipo-brasileira
Resumo em inglês
By presenting the life-story account of two Japanese women potters, Shoko Suzuki and Mieko Ukeseki, inserting it in its historical and sociocultural context, this work aims to present the historical constructions, cultural representations, personal experiences and subjectivities involved in the construction of their identity. From their discourse and practice analysis, collected from the precepts defined by Daniel Bertaux (1997) as récits de vie (“life story accounts”), we intend to understand the personal processes involved in the construction of their cultural identity, marked by the transcultural experience due to the immigration to Brazil in the 1960s and 1970s respectively. The history of Japanese ceramics takes here an important part for the construction of images of “Japaneseness”, which are translated in the discourse and practice of these potters. However, it is in the appropriation and reinterpretation of these representations in dialogue with their personal experiences and subjectivities that cultural identity is recreated. By shedding light on the personal account of the life stories of two Japanese women potters in Brazil, this research also aims to contribute to illuminate various aspects of the history, society and culture of Japan and Brazil in the last century, in particular, the situation of women in Japanese ceramics, the immigration of Japanese artists and craftsmen to Brazil, the processes involved in the construction of a Japanese cultural identity through craft and pottery and the creation of a Japanese-Brazilian identity.
Para quem quiser ler uma versão resumida (em inglês), segue AQUI o link do artigo publicado no volume 7 do Journal of International and Advanced Japanese Studies da Universidade de Tsukuba, Japão, em Março 2015.
Atendendo ao pedido de um leitor, em breve publicarei um pequeno texto sobre a cerâmica de Okinawa, após minha estadia de três semanas na região.
Aproveito ainda para deixar AQUI o link para o Tumblr que criei com o resultado do meu projeto para a aula de Fotografia Experimental ministrada pelo Professor Verl Adams na Universidade Metropolitana de Tokyo, intitulado “Images of Japan”.
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Pérolas e sereias japonesas

Ontem fui ver a exposição “Pérolas” no Museu de Arte Brasileira (São Paulo, Brasil) e recordei nostalgicamente a minha passagem pela Baía de Ago, no litoral da prefeitura de Mie (Japão), famosa por suas fazendas de pérolas. Isso foi em agosto de 2013, no pico do verão japonês e foi possível graças a uma bolsa para estudo da língua japonesa da Fundação Japão, que me permitiu fazer uma curta visita de campo à terra natal da ceramista japonesa residente no Brasil, Mieko Ukeseki (Cunha, SP – ver post). Sobre as paisagens naturais da sua terra natal, ela disse:

Eu nasci no interior da província de Mie, muito perto do mar, onde nasce o sol no oceano. Bem no interior. Tem muitas ilhas. Tipo Paratí, só que mar aberto.

Baía de Ago, agosto de 2013.
Baía de Ago, agosto de 2013.
Baía de Ago, wikipedia.
Baía de Ago, wikipedia.

A prefeitura de Mie é uma área majoritariamente rural e uma das mais pobres do arquipélago japonês, de onde saíram vários emigrantes em direção ao Brasil. No entanto, sua região centro-sul, especialmente a litorânea, tornou-se em um importante destino turístico doméstico após a Segunda Guerra, famosa pelos seus frutos do mar, pelas fazendas de pérolas e por um complexo de santuários xintoístas do século 3 chamado Ise Jingu. É na atual cidade de Shima, parte do parque nacional de Ise-Shima, que se localiza a também famosa baía de Ago, onde Mieko Ukeseki nasceu e viveu até aos seus 18 anos. A baía é conhecida pelo cultivo de pérolas, inventado aqui em 1893 por Kokichi Mikimoto.

Kokichi Mikimoto( 1858 - 1954)
Kokichi Mikimoto( 1858 – 1954)

O local é também famoso pelos grupos de mulheres que se dedicam à caça de pérolas naturais desde há cerca de 2 mil anos atrás. Elas são conhecidos como “ama”, mas hoje restam apenas algumas poucas senhoras japonesas (já nos seus 90 anos) que ganham a vida preenchendo os pulmões de ar e mergulhando por longos períodos de tempo nas profundezas do oceano Pacífico, com nada mais do que uma máscara e nadadeiras.

Mergulhadora japonesa "ama". http://www.messynessychic.com/
Mergulhadoras japonesas “ama”.
http://www.messynessychic.com/
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“Ama”
http://gakuran.com/

“Ama” (海 女 em japonês), significa literalmente “mulher do mar” e sua existência está registrada já em 750, na mais antiga antologia de poesia japonesa, o “Man’yōshū”. Essas mulheres especializaram-se no mergulho livre a cerca de 30 metros de profundidade, em água fria e usando nada mais do que uma tanga. Utilizando técnicas especiais para prender a respiração por até 2 minutos de cada vez, elas trabalhavam até 4 horas por dia na coleta de vários frutos do mar e, especialmente, a caça de pérolas.

Representação de uma "ama" na obra do mestre xilogravador Utagawa Kuniyoshi (1797 – 1861).
Representação de uma “ama” na obra do mestre xilogravador Utagawa Kuniyoshi (1797 – 1861).

O fato desta atividade ser feita exclusivamente por mulheres devia-se à crença da existência de uma camada isolante extra de gordura no corpo feminino que lhes permitiria manter a respiração por mais tempo do que os homens. Com esta vantagem, elas também podiam ganhar mais dinheiro em uma única temporada de mergulho do que a maioria dos homens de sua aldeia em um ano.

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“Ama”
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Depois da Segunda Guerra Mundial e com o crescimento do turismo doméstico no Japão, a nudez das “ama” começou a ser comentada pelos e elas foram forçadas a cobrir-se. Contudo, o fotógrafo japonês Yoshiyuki Iwase (1904-2001) capturou os últimos momentos preciosos de uma tradição que logo começou a desaparecer, “a beleza simples, até mesmo primitiva das Ama.”

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Ama já vestidas. http://gakuran.com/
Ama já vestidas.
http://gakuran.com/

Com a falta de mulheres jovens para suceder as mais velhas, aliada à modernização da pesca no Japão, esta prática antiga é cada vez menor.Em 1956, havia 17.611 Ama no Japão, mas a partir de 2010 só 2.174 permaneceram. Destes, quase a metade trabalha região de Shima, na prefeitura de Mie.

Quando visitei a Baía de Ago em agosto de 2013, tive o privilégio de conhecer rapidamente uma dessas senhoras e receber um colar com uma das pérolas colhida por ela. Isto porque eu tive a sorte de escolher almoçar em um pequeno restaurante local que servia frutos do mar grelhados e que pertencia ao seu filho. Surpreendido e orgulhoso da presença de uma estrangeira em área tão remota, ele pegou o colar com sua mãe idosa, que eu apenas vi de relance, e ofereceu-me como gratidão pela minha presença em seu restaurante. Além disso, quando eu estava entrando no barco em direção a uma das muitas ilhas da baía, ele correu em minha direção para me oferecer ainda um sorvete.

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Na exposição do Museu de Arte Brasileira, é explicado o processo da formação natural de pérolas  no interior de moluscos bivalves e caracóis do mar, assim como a sua antiga tradição de coleta e uso ornamental. Segundo a wikipedia:

Uma pérola é formada quando o tecido do manto da concha é ferido por um parasita, por um ataque de um peixe ou por outro evento que prejudica o aro externo frágil da concha de um bivalve ou de um molusco gastrópode. Em resposta, o tecido do manto do molusco segrega nácar no saco de pérolas, um cisto que se forma durante o processo de cura.

Pérola sendo extraída de uma ostra akoya. Wikipedia.
Pérola sendo extraída de uma ostra akoya. Wikipedia.

No final do século 19, o japonês Kokichi Mikimoto descobriu uma técnica que possibilitava o cultivo artificial de pérolas dentro dos próprios moluscos, provocando a sua produção nos mesmos moldes da natural ao introduzir uma matriz que formará a bolsa perolífera. Esta técnica proliferou-se ao redor do mundo e hoje a empresa de luxo Mikimoto possui lojas em Paris, Nova Iorque, Xangai, Tóquio, entre outras. 

Tudo isto pode ser visto na exposição no Museu de Arte Brasileira, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, até ao dia 28 de setembro.

Mais informações:

Exposição Pérolas FAAP

The Last Japanese Mermaids

Ama the pearl diving mermaids of Japan

Extra:

Cena do filme “Tampopo” (dir. Juzo Itami, Japão, 1985):

A Balada de Marunouchi

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Odeio Marunouchi, centro empresarial e financeiro de Tokyo, seus prédios altos e espelhados, suas lojas de grife e seus cafés com nomes em francês. Saí na estação de metrô Hibiya, perto de onde fica o Museu de Artes Idemitsu, que exibia uma mostra sobre o ceramista japonês Itaya Hazan, falecido em 1963. Admito que não estava muito disposta à visita, pois apesar de conhecer pouco sobre o trabalho de Hazan, sabia que ele trabalhava especialmente com porcelana, material que eu não aprecio tanto por ser mais fina e elegante que a cerâmica comum. Combinava, portanto, com o ambiente pseudo-chique de Marunouchi.

Depois de me perder durante 10 minutos no espaço de três quarteirões frequentados majoritariamente por sarariman (salary men) engravatados e me sentido completamente deslocada, lá dei de caras com o museu. Na porta, percebi rapidamente um senhorzinho japonês que, tal como eu, destoava da multidão por seu estilo “descolado”: cabelo branco pelos ombros coberto por um chapéu de abas, sobretudo comprido e longa barba branca.

No momento não prestei muita atenção e lá entrei no elevador do prédio chiquérrimo, onde um porteiro de uniforme organizava a fila e as entradas e saídas do elevador. Logo que apertei o botão do sexto andar, onde fica o museu, percebi que o tal senhorzinho “descolado” entrara junto comigo.

– Doko kara kimashita? – “de onde você é?” perguntou em japonês.

– Eu sou portuguesa, mas moro no Brasil – respondi como normalmente.

– Ahhhhh! – soltou espantado – Eu fui a Portugal o ano passado!

– É mesmo? – respondi também surpresa. – E gostou?

Sexto andar. As portas dos elevadores abriram-se e começamos ambos caminhando em direção à bilheteria.

– Eu fui a Compustela, na Espanha, e depois Porto, Coimbra, Nazaré – comentou.

– Foi sua primeira vez em Portugal? – perguntei.

– Segunda.

Chegando na bilhetaria, apresentei meu cartão de estudante e estava tirando o dinheiro da carteira para pagar a entrada quando ele me disse:

– Não, não. Você não precisa pagar.

– Porquê? – soltei espantada.

Então ele mostrou um cartão à funcionária da bilheteria, que sorriu e nos entregou o ingresso sem cobrar nada. Tentando entender o que se passava, o senhorzinho “descolado” me pegou de surpresa mais uma vez:

– Eu adoro Portugal – disse, em português com sotaque.

-Uaahhh! – gritei eu espantada – O senhor fala português!

– Eu morei em Brasília há dez anos atrás – explicou.

Depois me mostrou o tal cartão que usou para entrar de graça no museu, explicando alguma coisa em japonês que eu não entendi.

– Jya, bye bye! – disse de repente.

– Muito obrigada! – respondi gaguejando, num misto de surpresa e constrangimento.

– Qual é seu nome? – perguntou-me ainda.

– Liliana – disse – E o seu?

– Moritani.

– Muito prazer Sr. Moritani!

E lá seguiu ele à frente para a exposição.

***

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Depois de ter visto dezenas de exposições de cerâmica tradicional japonesa, mostrando números infinitos de tigelas para a cerimônia do chá, rústicas, tortas, assimétricas, influenciadas pela estética wabi-sabi, ou como lhe queiramos chamar, as obras de Itaya Hazan caíram como uma lufada de ar fresco.

Influenciado pelo movimento europeu art nouveau que, por sua vez, se inspirou também na estética japonesa e suas artes tradicionais, Hazan criou peças ao mesmo tempo simples e exuberantes, de uma delicadeza excepcional. Suas obras em porcelana são bem diferentes daquele tipo a que eu estava acostumada de superfícies brilhantes e motivos excessivamente detalhados. Além das porcelanas brancas com vidrado mate, pintadas à mão em cores pastel com traços que lembram as técnicas de caligrafia, Hazan executou também várias experiências com cristais minerais, resultando em obras com cores e tons fora do comum, que eu jamais havia visto em peças de cerâmica.

Hazan também criou algumas tigelas para a cerimônia do chá, bem diferentes das de estilo raku ou outros estilos tradicionais usados na ocasião, caracterizadas por sua simplicidade e sobriedade. Uma das peças que mais me marcou tem o nome de Amanogawa (Via Láctea), mas infelizmente não encontrei nenhuma foto para colocar aqui.

***

Enquanto eu via atentamente a exposição, tirando apontamentos vários, o Sr. Moritani veio se despedir. Ainda me perguntou o que fazia e comentou que existia um restaurante português que ele gostava muito perto do Parque Yoyogi. Enquato conversávamos entusiasticamente no meio da exposição, uma funcionária aproximou-se pedindo-nos para baixar o tom de voz. No fim, pedi-lhe o cartão de visita, com a intenção de lhe enviar um e-mail agradecendo a entrada no museu e nos despedimos.

Depois de terminar a visita à exposição dirigi-me à cafetaria, que tem uma vista belíssima dos prédios empresarias, altos e espelhados da região e dos jardins do Palácio Imperial.

Acho que, afinal, até gosto de Marunouchi.

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***

Estou no Japão pela terceira vez desde que escrevi o último post neste blog há um ano e meio. O motivo, pesquisa de campo sobre ceramista estrangeiros residentes no país, na Universidade de Kanagawa. A partir de hoje tentarei ser mais assídua na partilha de conhecimentos, situações e experiências de uma portuguesa entre o Brasil e o Japão.

A Natureza e Hayao Miyazaki

Hayao Miyaziki dispensa, certamente para os “japonófilos”, grandes apresentações. Renomado diretor de cinema de animação há mais de 30 anos, realizou títulos tão conhecidos como “Totoro” (1988), “A Viagem de Chihiro” (2001) e, mais recentemente, “Ponyo”  (2009). Quem já assistiu a pelo menos dois filmes de Miyazi, pode perceber como a “temática ambientalista” é algo recorrente.

Miyazaki na sede do Studio Ghibli, onde habita uma estátua do robot de “Laputa” (1986)

Apesar de recusar a “etiqueta ecologista”, a maioria dos filmes do diretor transmite uma mensagem que alerta para a necessidade de preservação das florestas ancestrais e dos traços da cultura tradicional japonesa que se conectam com esse esforço. Exemplos disso são a frequência de referências ao animismo e ao xintoísmo, crenças existentes no Japão desde épocas pré-históricas, presentes especialmente nos anime “Totoro” (1988), “Princesa Mononoke” (1998) e “A Viagem de Chihiro”.

Árvore de cânfora em “Totoro” (1988)
Espírito da Floresta (Shishigami) de “Princesa Mononoke” (1998)
Pequenos santuários shinto em “A Viagem de Chihiro” (2001)

Aos paulistas interessados na temática, aguardem! Em breve, quem vos escreve virá com uma interessante novidade “miyazakiana”… Quem sabe, talvez um conjunto de palestras com temas relacionados a Hayao Miyazaki? Shhhhhhhhh…. O segredo ainda está guardado nas brenhas sombrias da floresta sagrada protegida pelos amáveis mas temíveis kodama.

Kodama, pequenos espíritos que habitam as árvores sagradas de “Princesa Mononoke” (1998)

De Tokyo ao Mondego: um documentário de Aya Koretzky

Em um dos meus últimos dias em Lisboa, um daqueles dias fastidiosos e nostálgicos de frio e chuva persistente, tive uma feliz surpresa. Graças ao  aviso oportuno da minha mãe, liguei a televisão na RTP2 pensando assistir algum filme japonês que combinasse com  aquele clima quase mordaz.

Para minha grande surpresa, o filme contava a história de uma menina que, com nove anos, se mudou de Tóquio para a região portuguesa do Mondego, junatemente com o pai japonês e a mãe belga.  A menina é Aya Koretzy, diretora do filme e vencedora do Prémio Doclisboa 2011 e do Prêmio Revelação do Festival de Cinema Luso-Brasileiro 2011, pelo seu primeiro filme como diretora “Yama no Anata” (“Para Além das Montanhas”).

O documentário mostra testemunhos dessa experiência diaspórica desde Tóquio, uma das maiores metrópoles do mundo, para uma velha casa sem luz ou água em uma pacata região perto de Coimbra, no vale do rio Mondego. Em forma de fotos e vídeos antigos da família, paisagens nebulosas e montanhosas, cartas trocadas com os amigos que ficaram e testemunhos paterno e materno, fui convidada a entrar numa viagem pessoal, poética e contemplativa.

“Submerjo nas paisagens do Mondego para onde vim morar com os meus pais em criança, deixando para trás Tóquio, a cidade onde nasci. Através da leitura de cartas que troquei com os amigos e a família que permaneceram no país, reflito sobre a nossa vinda para Portugal e relembro o passado na tentativa de reter a memória efémera, numa viagem com os espíritos que permanecem comigo.” – Aya Koretzky 
 

Aya  Koretzy, 29 anos, belgo-nipo-portuguesa, vive e trabalha entre Lisboa e Paris, onde cursa o mestrado em Cinema na Sorbonne. “Yama no Anata”, produzido em 2011, foi exibido no cinema São Jorge, em Lisboa, a 14 de Abril deste ano e passou na televisão pública portuguesa (RTP2) no dia 25 do mesmo mês, data em que se comemora em Portugal o fim da ditadura, comumente conhecido como Revolução dos Cravos.

“Para Além das Montanhas” passará possivelmente em algumas salas de cinema em Portugal e mais algumas vezes na televisão portuguesa. Resta desejar que saia também em DVD para que possamos assistir aqui no Brasil!

“A lyrical ode to what lies beyond, given texture from inky letters and the pixels of home video but sung by goats and crows, Aya Koretzky’s extraordinary debut, submerges us in the Mondego River, invoking spirits and interrogating memories to ask pertinent questions about coming and going and home.” – International Film Festival Rotterdam
 
 

Castella do Paulo, um tesouro gastronômico luso-japonês em Lisboa!

Sábado passado tive a oportunidade de conhecer um lugar incrível,  graças à dica da talentosa ilustradora Yara Kono, com quem tive o prazer de almoçar e sobre quem já escrevi num post anterior.

Castella do Paulo, na Rua da Alfândega 120, Lisboa

O lugar é uma pastelaria luso-portuguesa, chamada “Castella do Paulo” e localizada no Terreiro do Paço, pertinho da Casa dos Bicos, uma das regiões mais interessantes de Lisboa.

O nome do lugar vem do famoso pão-de-ló introduzido pelos portugueses no Japão no século XVI, onde ficou conhecido como “castella” (pronuncia-se “castera”). Como sabemos, os primeiros europeus a chegar ao Japão foram os missionários jesuítas portugueses em 1543, apesar de Marco Polo já ter falado, em 1291, de um lugar chamado “Ji-pangu”, que quer dizer “local onde o sol nasce” em chinês. Além da introdução do cristianismo e das armas de fogo, a presença portuguesa no Japão, que durou cerca de 50 anos e terminou com a expulsão dos jesuítas, deixou também marcas na cultura nipônica.

A arte namban, por exemplo, que significa “bárbaros do sul” (“nanban-jin”), retrata os viajantes portugueses, suas trocas comerciais no Japão e a história da sua viagem marítima, tudo do ponto de vista dos japoneses. Ela inclui pinturas, esculturas, cerâmica, mobiliário e outros ornamentos, mas os objetos mais representativos são os famosos biombos, como o de baixo, que faz parte do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Biombo com o selo de Kano Naizen (1593-1601),
da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.
Detalhe do biombo com o selo de Kano Naizen (1593-1601), da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Para além da arte, a influência portuguesa pode também ser observada em algumas palavras japoneses, como “pan” (pão), “koppu” (copo), “tempura” (tempero) e a própria “castera”. A origem do nome é uma indefinido, mas alguns defendem que é um diminutivo de “bolo de Castela” (do antigo reino espanhol) ou de “claras em castelo” (no Brasil, clara batida em neve), com as quais o bolo é preparado. Tal como outros elementos da gastronomia portuguesa introduzidos no Japão no século XVI (como o tempura ou os confeitos), a castella adaptou-se ao gosto japonês e hoje é considerada uma iguaria nacional!

E a castella do Paulo é realmente uma iguaria! Único estrangeiro a aprender a confecionar castella na histórica casa Shooken em Nagasaki, a maior cidade produtora de castella do Japão e onde se localizam as melhores e mais antigas casas de confetaria do pão-de-ló japonês, Paulo Duarte é um português com um toque nipônico!

A Castella do Paulo abriu a primeira fábrica artesanal em 1996 na margem sul do rio Tejo (cidade de Seixal), depois de Paulo regressar do Japão, e em 2003 abriu para o atendimento ao público no centro lisboeta, fazendo grande sucesso entre portugueses e turistas.

Apesar de ser chamado de salão de chá, já que o pão-de-ló combina tão bem com a variedade de chás oferecida pela casa, a Castella do Paulo distingue-se pela qualidade da sua pastelaria e também serve almoços caseiros deliciosos, como o teriyaki de hamburger e tofu com vinho do porto que comi no sábado (e ao qual, infelizmente, esqueci de tirar foto)!

E o carro chefe é, claro, a inusitada e incrivelmente deliciosa castella de chá verde! O sabor é indescritível, mas a textura do pão-de-ló é simplesmente perfeita, leve e fofa e maravilhosa!

E além de tudo, a castella vem numa embalagem linda e super cuidada, com um folheto explicando a origem do bolo, como abri-lo e a melhor forma de conservá-lo. Super japonês!

Além do pão-de-ló de chá verde, a casa oferece também a castella simples e a de chocolate e as três podem ser degustadas com vinho do porto, chá frio mugicha ou chá verde sen-cha entre as 17h e as 19h, por apenas 2 euros!

Ademais, a casa confecciona também uma variedade de doces portugueses, japoneses e até franceses, como os famosos macarons, com sabor de chá verde,  chá preto, chocolate, canela e até vinho do porto!

macaron de chá verde!

Como eu sou um zero à esquerda em gastronomia, mas sou boa de garfo, esqueci de anotar o nome do dois bolos que comprei de chá verde e de feijão, mas seguem as fotos mesmo assim! (Atualização: Os bolos são meronpan de chá verde (à esquerda) e anpan de feijão (à deireita) e, claro, o famoso pão-de-ló de chá verde em cima!)

Resumindo, um tesouro gastronômico luso-japonês recomendadíssimo!   Certamente um “must go” para quem estiver de passagem por Lisboa!

Serviço
 
Castella do Paulo – Salão de Chá
Rua da Alfândega, 120 – Lisboa
21 888 00 19
De 2ª a 6ª das 7:30 às 19:30. Sábado das 12:00 às 19:30.
Encerra domingos e feriados.
 
http://www.castella.pt/

Palestras sobre arte nipo-brasileira em Lisboa!

Tenho o prazer de anunciar que, na próxima semana, irei apresentar em duas universidades da cidade de Lisboa palestras sobre as minhas pesquisas na área de estudos nipo-brasileiros!

foto: Fernando Saiki
Cerâmica de Shoko Suzuki.
Foto: Fernando Saiki

A primeira irá acontecer na Universidade Nova de Lisboa, próxima quarta-feira dia 11, pelas 18h30. Sob o título “O Panorama da Cerâmica Japonesa no Brasil”, falarei um pouco sobre a história da imigração japonesa no Brasil e o aparecimento da produção de cerâmica por japoneses e seus descendentes neste contexto. Deixo umas breves considerações em baixo, só para espevitar um pouco o interesse dos leitores e convencê-los a aparecerem por lá!

Apesar da imigração japonesa para o Brasil ter-se iniciado no ano de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos, a produção de cerâmica por artistas nipônicos só começou na década de 60! Querem saber porquê? Bom, então vão ter que comparecer no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova na próxima quarta-feira! Aí eu vou falar dos ceramistas pioneiros no Brasil, como Shoko Suzuki, que já foi tema de um post deste blog, e também dos artistas nipo-brasileiros de segunda e terceira gerações, como a querida Kimi Nii.

foto: Fernando Saiki
Kimi Nii
Foto: Fernando Saiki

A segunda palestra irá acontecer na Universidade Católica Portuguesa, no próximo sábado dia 14, pelas 15h. Nela vou falar sobre um projeto que tem vindo a ser desenvolvido no último ano sob a coordenação da Prof. Dra. Michiko Okano dentro da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. O título da palestra é “O Artesanato Japonês no Brasil”, sendo “artesanato” a palavra mais próxima em português para designar um tipo de arte muito valorizada no Japão que é o “kougei”.

foto: Fernando Saiki
Detalhe de obra em metal de Nobuyoshi Mitsuhashi.
Foto: Fernando Saiki

Durante a palestra, vou explicar o significado da palavra “kougei” para a cultura japonesa e a sua relação com o Movimento Arts & Crafts, que surgiu na Inglaterra no final do século XIX.

O termo “kougei” é traduzido literalmente como “trabalho bem feito”, sendo a junção das palavras “habilidade” (“kou”) e “arte” (“gei”). Dentro desta categoria incluem-se as artes que empregam técnicas sofisticadas, como o trabalho em madeira, metal, papel, laca, a arte da boneca, cerâmica, esmalte, tingimento de tecidos e outras.

foto: Fernando Saiki
Tecidos tingidos de modo natural por Hisako Kawakami.
Foto: Fernando Saiki

Na palestra, vou falar brevemente sobre o surgimento dessas artes no Japão e a sua história no Brasil, que está relacionada à imigração de artistas e artesãos japoneses no período após a Segunda Guerra. Se quiserem conhecer a trabalho destes artistas e suas histórias de vida, assim como as subtilezas da arte kougei japonesa e nipo-brasileira, compareçam no 2º piso do Edifício da Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica, no próximo sábado dia 14, às 15h!

Espero vê-los por lá!!! ^^

Mais informações:

O Panorama da Cerâmica Japonesa no Brasil
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Auditório 1
11 de Abril, às 18h30
Entrada Livre
O Artesanato Tradicional Japonês no Brasil
Universidade Católica Portuguesa – Palma de Cima
Sala de Exposições – Edifício Biblioteca João Paulo II, piso 2
14 de Abril, às 15h
Entrada Livre, necessário marcar presença prévia